Numa conversa de uma hora e 17 minutos por onde passaram caboclos de quatro séculos, orixás, santas católicas e Zaratempo, entidade ligada ao tempo nos terreiros de Angola, a divindade mais presente é a única que dispensa altar para ser cultuada. O dinheiro atravessa quase todas as respostas de Luiz Antonio Simas, ainda que o historiador carioca prefira chamá-lo por outro nome, a “financeirização da vida”, processo que, na leitura dele, transformou a escola em empresa, entregou as cidades ao capital e ao carro e vem desfazendo, dia após dia, a tão fundamental experiência de pertencer a uma comunidade.
Simas foi o primeiro carioca de uma família de alagoanos e pernambucanos. Ele cresceu na Baixada Fluminense, em Nova Iguaçu, criado pelos avós depois que os pais se separaram, quando tinha só 4 anos de idade. A avó, Dona Deda, era mãe de santo iniciada na tradição Xambá, e foi no terreiro que ela abriu na Baixada Fluminense que o neto se formou ogã, os homens que garantem pelo toque do atabaque, a conexão com o mundo da espiritualidade no candomblé.
Formado em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também concluiu um mestrado em história social, ele conta 32 anos ininterruptos de sala de aula. Simas dividiu com Nei Lopes o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção de 2016, pelo Dicionário da História Social do Samba (Civilização Brasileira).
O ponto de partida do trabalho de Simas é o seu diagnóstico de um país construído como um projeto de horror, aniquilador de corpos e saberes que não são brancos. O que mais lhe interessa é entender como, diante disso, o povo consegue diariamente inventar sentidos de vida. A festa popular, nesse raciocínio, existe justamente porque a vida é dura. Ela recompõe os laços coletivos que o tempo do relógio e da produção esgarça todos os dias. “O coletivo está sendo estraçalhado”, outra reveladora frase de Simas, ganha aqui a sua explicação mais completa.
Ouça no Trip FM: Itamar Vieira Junior: Ler é exercício de estar no lugar do outro
A gravação deste Trip FM aconteceu em 30 de setembro, a poucos dias do primeiro turno da eleição, numa semana em que Nossa Senhora Aparecida foi parar no centro da disputa eleitoral e em que seguiam vindo a público mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A padroeira nacional é também tema do novo livro de Simas, Tantas Marias: Nossa Senhora na Cultura Popular (Civilização Brasileira), que parte de uma inquietação explicada por ele na conversa: o que interessa ao autor não é saber como as igrejas santificam as mulheres e os homens, mas “como é que o povo humaniza o santo”.

Abaixo, alguns dos melhores momentos da conversa com Simas. Você também pode ouvir a entrevista completa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts entre outras plataformas de áudio. E tem mais: As entrevistas do Trip FM voltaram, com grande alegria, à programação da Eldorado FM, agora nos 107,9 MHz.
Trip FM: Você foi criado pela sua avó, que era mãe de santo. Como foi ser um menino de vó de terreiro?
Luiz Antonio Simas: Para mim foi a coisa mais comum do mundo, porque foi a minha infância. Meus pais se separaram quando eu tinha 4 anos e passei a ser criado pela minha avó e pelo meu avô. A minha avó, Dona Deda, era mãe de santo. Ela foi iniciada em Pernambuco, na tradição do Xambá, veio para o Rio de Janeiro e abriu o terreiro dela em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Cresci ali dentro. E me lembro de que as maiores broncas que tomei na infância foram dadas pelo caboclo da minha tia, o caboclo Tupinambá, que teria morrido, segundo ele mesmo, em 1565, nas batalhas da Guanabara, na fundação da cidade. Quando você é uma criança que convive com um caboclo de 400 anos que te dá esporro a toda hora, você convive com o extraordinário. Muito provavelmente, em consequência de ter crescido diante do que é extraordinário para muita gente, eu me dedique muito a observar o que, para muita gente, é ordinário.
LEIA TAMBÉM: Todo menino merece um homem para se espelhar
Trip FM: Como a história entrou nesse olhar?
Luiz Antonio Simas: Eu fiz história na Universidade Federal do Rio de Janeiro querendo ser professor de colégio. Até que fiz um curso com a professora Marieta de Moraes Ferreira, e ela nos passou uma bibliografia muito atualizada sobre a cidade do Rio de Janeiro e as culturas de rua. Nicolau Sevcenko tinha publicado Literatura como Missão, José Murilo de Carvalho tinha publicado Os Bestializados, Sidney Chalhoub tinha publicado Trabalho, Lar e Botequim. Aquelas leituras me colocaram em outro lugar. Comecei a perceber que o que acontecia na minha esquina era dotado de historicidade. Todo mundo tem uma história que merece ser contada.
“A gente está passando por um período, e isso é um fenômeno global, marcado por um processo vigoroso de individualização e financeirização de todos os aspectos da vida”
Trip FM: Você escreve sobre carnaval, macumba, futebol, jogo do bicho. O que liga esses temas?
Luiz Antonio Simas: Parto do princípio de que o processo histórico que caracteriza a formação brasileira é extremamente violento, cruel, aniquilador de corpos e saberes que não são brancos, fundamentado na concentração da propriedade e da renda. Dourar a pílula a respeito do Brasil definitivamente não é a minha praia. Mas não sou um estudioso desse Brasil horroroso, tem gente que estuda isso com a maior competência. O que estudo é o inverso: como é que, diante de um projeto de horror, de aniquilação, de morte, foi possível construir sentido de vida? Tem uma frase que digo num livro meu, O Corpo Encantado das Ruas, que a minha desconfiança em relação ao Brasil é de que a gente não faz festa porque a vida é boa, a gente faz pela razão inversa. A vida é um horror, e a festa acontece por causa disso. Porque a festa, o folguedo, reconstrói sentidos de pertencimento, sentidos coletivos, redes de proteção social que, de outro modo, seriam completamente esfaceladas. Muita gente que não me leu talvez ache, pelos temas que trabalho, que eu seja um efusivo propagandista de um Brasil triunfal, magnífico, alegre, quando na verdade é o inverso. Eu costumo dizer que há uma guerra entre o Brasil, entendido como um projeto de Estado-nação fundado na exclusão desde os tempos coloniais, e a brasilidade, entendida como esse campo de elaboração de sentidos de mundo.

Trip FM: Li num depoimento seu a frase “o coletivo está sendo estraçalhado”. O que ela revela?
Luiz Antonio Simas: A gente está passando por um período, e isso é um fenômeno global, marcado por um processo vigoroso de individualização e financeirização de todos os aspectos da vida. A aceleração do tempo, a disciplina imposta aos corpos pelo tempo do relógio, pelo tempo da produção, pelo tempo do trabalho, tudo isso desconstruiu esses sentidos coletivos que a vida pode possuir. A ideia de que nós pertencemos a uma comunidade, de que participamos da partilha do comum, tem sido dilacerada por uma lógica produtiva que é brutal, pela completa financeirização de todos os aspectos da vida, pela formação de grandes cidades cada vez mais hostis ao encontro. Me parece que a festa busca restaurar esse sentido de pertencimento coletivo que é estraçalhado cotidianamente. Quando você se insere nessa cultura festeira, numa roda de samba, numa gira de macumba, numa procissão, num cortejo de maracatu, num baile debaixo de um viaduto do subúrbio, você está se restaurando como membro de uma coletividade. A disputa é essa: reconstruir inventivamente sentidos coletivos de vida em contextos nos quais a ideia de pertencimento a uma coletividade é sistematicamente atacada.
LEIA TAMBÉM: Estética é política
Trip FM: O país vem acompanhando o escândalo do Banco Master, com conversas vazadas que expõem a rede tóxica construída pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Qual o papel dessa suposta elite financeira na construção ou na destruição do tecido social?
Luiz Antonio Simas: Não é uma coisa que eu estude, eu estudo as reações a esse processo. Mas gosto muito, como historiador, de pensar a história no longo e no curto prazo, e nós temos estruturas de longo prazo que contam uma história horrorosa sobre isso a que estamos atribuindo o nome de elite brasileira. Uma história marcada pelo senhor de engenho, pelo feitor, pelo bandeirante que apressava indígena e recebia dinheiro para destruir quilombo. Quatro séculos de escravidão geraram uma elite que nem acha que tem que ser produtiva, porque tem alguém que tem que produzir para ela. É uma relação com o poder entranhada da noção de privilégio, de uma ânsia profundíssima acumulativa, de um bando de sicofantas que acham que têm que se divertir e os outros que se danem. Há um Brasil que não saiu até hoje do alpendre da casa-grande. E confesso que me espanto, porque de forma nenhuma eu queria ter uma vida medonha como acho que é a vida desses caras, o tempo todo articulando, querendo ganhar dinheiro, querendo demonstrar que têm poder. Esse poder senhorial, que cheira a coronelismo urbano, de saber que tem gente que depende de você, com ritual de beija-mão. É um horror esse troço.
Trip FM: Essa lógica destrutiva que você descreve aparece também nas ocupações e nas transformações das cidades, com cada vez mais construções gigantescas e mal planejadas, em boa medida feitas exclusivamente para gerar ganho financeiro e exibir poder sem se preocupar com as consequências. Como você vê essa ocupação equivocada dos espaços?
Luiz Antonio Simas: Eu só não vou dizer que é equivocada, porque eu acho que é proposital. A ideia do bem comum passa longe desse pessoal, e o desprezo pela alteridade é uma marca dessa gente. O diagnóstico das grandes cidades passa pela completa financeirização da vida e pela submissão da vida à lógica do mercado. A barbearia de rua está morrendo, a quitanda, o açougue de rua, o cinema de rua, a feira livre, que a gente tem que lutar para que seja preservada. É um espaço urbano determinado pelo dinheiro, pelo medo, pela hostilidade, pelo protagonismo do veículo motorizado. Por isso é que eu digo que é importante estar atento ao que aparentemente é corriqueiro, porque a vida está acontecendo ali, naquela barbearia, naquela quitanda, naquela praça. Tem luta, tem coletivos que tensionam esse projeto de horror, mas o projeto é devastador, é um projeto de absoluto desencanto.
“O racismo não se manifesta só na cor da pele, ainda que essa seja a manifestação mais medonha e obscena, ele se manifesta também na desqualificação de bens simbólicos”
Trip FM: E a destruição do patrimônio histórico?
Luiz Antonio Simas: É, de novo, um projeto, e não é de hoje. Eu escrevi com o Nei Lopes, meu mestre, o Dicionário da História Social do Samba, que ganhou o Jabuti de Livro do Ano em 2016, e por conta disso a gente deu muitas entrevistas. Numa delas, me pediram para citar lugares marcantes para a história do samba no Rio de Janeiro. Citei a casa de Tia Ciata, o Largo do Estácio, a casa de Dona Madalena Rica, do Xangô de Ouro, a Praça Onze. Num certo momento, parei para perceber que só estava citando lugares que não existem mais. Quando um não existe mais, você pode considerar um descuido com a história; quando dois não existem, um problema muito sério. Mas quando todos os que você cita não existem, é um projeto de aniquilação, nesse caso dos lugares de memória das culturas negras do Rio de Janeiro, porque a própria noção de patrimônio, durante muito tempo, foi ocidentalizada e um tanto elitista. Isso mudou, ainda bem, mas a gente sofre com um descaso absoluto, que passa também por um déficit do processo educacional brasileiro. Talvez o maior escritor deste Brasil seja Machado de Assis, e os lugares onde ele viveu não são minimamente valorizados, diversos foram destruídos. Parece que nós fomos moldados para destruir.
LEIA TAMBÉM: 6 filmes dirigidos por mulheres para ver no Tela Brasil
Trip FM: Você é professor há mais de três décadas. A escola ainda consegue tocar alguém?
Luiz Antonio Simas: Tá difícil. Eu tenho 32 anos de sala de aula ininterruptos. Hoje nós temos um modelo de educação muito próximo daquilo que o Paulo Freire chamava de educação bancária, em que a escola tem sido pensada como uma empresa, o professor como um adestrador e o aluno como cliente. O que a escola no Brasil está fazendo hoje, sobretudo na educação privada, é preparar a gente para os currais do mercado, enquanto o ensino público é precarizado. Eu diria que hoje vivo o meu pior momento como professor em escola. Quando você pensa em educação como um produto, a gente está indo para o saco. Mas tem luta, tem muita gente lutando pela escola no Brasil.
Trip FM: Nos últimos dias, Nossa Senhora Aparecida virou assunto de disputa eleitoral. Como você vê isso?
Luiz Antonio Simas: Eu temo que isso fique na superfície da disputa eleitoral, porque o Brasil há muito tempo vem passando por um processo, que tem que ser denunciado, de crescimento do racismo religioso, ligado sobretudo a algumas denominações neopentecostais. Não todas: fazer alianças com o campo progressista do cristianismo evangélico é importante. O racismo não se manifesta só na cor da pele, ainda que essa seja a manifestação mais medonha e obscena, ele se manifesta também na desqualificação de bens simbólicos. Quando um pastor chutou [a imagem de] Nossa Senhora da Conceição Aparecida, houve um escândalo, e ainda bem que houve. Mas o ataque a terreiro, que é cotidiano no Brasil, não tem a mesma repercussão, e isso tem que ser dito. Ninguém quer ser tolerado, as pessoas querem ser respeitadas nas relações que estabelecem com o mistério, com a fé, com a cultura.
Trip FM: A longevidade virou obsessão nos últimos tempos, com anéis e relógios que medem cada fase do sono e produzem painéis de dados sobre seu corpo. Por que tudo vira negócio?
Luiz Antonio Simas: Eu escrevi sobre isso lá atrás, num livro chamado Pedrinhas Miudinhas, e aquilo já estava começando a me espantar, mas eu não imaginava que chegaria a esse ponto obsceno, bizarro. Você tem um culto à juventude que opera na dimensão da aparência, do padrão predeterminado, e isso é muito estimulado pelas redes sociais, porque você está o tempo todo trabalhando com a imagem, com filtro. Você vai a um estádio de futebol e, em vez de estar preocupado com o desempenho do seu time em campo, está preocupado em filmar o seu desempenho como torcedor. O carnaval de rua, que já foi uma festa do “não me encontrem”, porque era uma festa da máscara, cada vez mais virou uma festa do “me encontrem, saibam onde estou e vejam como estou fantasiado”. O Aldir Blanc, numa rápida conversa por telefone que tivemos, fazia um diagnóstico que hoje constato que está perto da verdade: as pessoas estavam postando tudo o que viviam e chegariam a um tempo em que só viveriam aquilo que postaram.
Além disso, a gente tem uma dificuldade terrível de lidar com a morte, com a finitude, com o tempo. As coisas terminam e, às vezes, só recomeçam justamente porque têm que terminar. A gente está lutando contra o tempo, em vez de tentar transformar o tempo num aliado. E eu estou falando do tempo numa dimensão mais profunda: nos terreiros de Angola, Zaratempo é uma grande entidade vinculada ao tempo. A gente está fugindo do tempo, está em pânico, e essa exacerbação esdrúxula é muito mais um sinal de medo, de desencanto, do que de fruição da vida. Não estou demonizando as redes sociais. Há um oriki [palavra de origem iorubá que define uma espécie de louvor ou saudação] de Ossain que diz: “Veneno e remédio são irmãos e eles moram na mesma folha”. A mesma folha que, macerada e cantada de um jeito, te cura, de outro jeito te mata. Nós já tivemos maneiras mais bonitas de lidar com a morte. Hoje operamos numa negação absoluta ao tempo.
LEIA TAMBÉM: 4 livros sobre feminismo para homens
