Precisei voltar para a casa da minha mãe depois de adulta. Esse foi o tema do meu primeiro vídeo que alcançou 1 milhão de pessoas no Instagram e, a convite da revista Tpm, venho falar um pouco sobre esse fenômeno.
Publicar essa fase da minha vida não foi tão simples. Durante muito tempo, participei da lógica das redes sociais, onde geralmente mostramos apenas sucesso, conquistas e uma vida que parece estar sempre dando certo. Criei um personagem que precisava parecer bem-sucedido a qualquer custo. “Pareça ser rica até ser rica” foi uma das frases que me guiou até aqui.
“‘Pareça ser rica até ser’ foi uma das frases que me guiou até aqui. Esse personagem custou caro”
Tenho 29 anos. Nasci e vivi no bairro do Valo Velho, Itapecerica da Serra, em São Paulo. Estudei Gestão de Projetos Sociais e atualmente sou estudante no curso de Marketing. Criei minha loja, um brechó especializado na venda de peças de alfaiataria, que hoje soma 6 anos de existência. Tudo ia bem, fui crescendo aos poucos, aluguei uma casa no centro de São Paulo com espaço para a loja, onde tinha um formato de atendimento por agendamento.

Após um período, comecei a atender clientes com um poder de compra maior e, nesse processo, tive contato com outras realidades sociais. Passei, então, a buscar mentorias e imersões voltadas ao mercado de luxo. Elas reforçavam a importância de mergulhar nesse universo: adotar determinados padrões de comportamento, frequentar certos lugares e, sobretudo, construir uma imagem de quem parecia rica, porque, segundo essa lógica, isso faria vender mais, aumentar meu faturamento e, consequentemente, alcançar uma ascensão social.
Eu criei esse personagem. Porém ele custou caro.
“Comecei a dar passos maiores do que a perna, pensando que fazia parte do meu crescimento. Enquanto eu tentava sustentar um padrão de vida fora da minha realidade financeira, enfrentava dificuldades nos negócios. Me endividei”
Passei a me distanciar da mulher que eu era, dos meus limites e, principalmente, da realidade financeira que eu realmente tinha. Comecei a dar passos maiores do que a minha perna, acreditando que aquele movimento fazia parte do crescimento que eu buscava. Só que, enquanto eu tentava sustentar essa nova imagem, também enfrentava desafios concretos dentro do próprio negócio.
O mercado de brechós tem uma dinâmica muito diferente de uma loja tradicional. Não existe simplesmente um fornecedor ao qual você recorre para repor a mesma peça em grande quantidade. É preciso garimpar, peça por peça, construir uma curadoria e encontrar mercadorias que façam sentido para o seu público.
Com o tempo, meus canais de acesso às peças foram ficando mais escassos, o que tornou o abastecimento da loja cada vez mais desafiador. De um lado, eu estava tentando sustentar uma imagem e um padrão de vida que não correspondiam à minha realidade financeira. Do outro, o próprio negócio começava a enfrentar dificuldades quase insustentáveis. Me endividei.
Foi nesse cruzamento entre as escolhas que fiz, as dívidas que acumulei e os desafios que o próprio mercado me apresentou que as coisas começaram a mudar: precisei repensar a dinâmica da loja física e decidi voltar para a casa da minha mãe para conseguir reorganizar a vida.
“A casa da minha mãe não era onde eu imaginava estar hoje. Mas foi ali que comecei a me resgatar. Precisei deixar o ego de lado e entender que pedir ajuda não me diminuía”
De volta à casa dela, no bairro onde cresci, me deparei com a necessidade de olhar para minha trajetória e repensar sobre o que eu queria construir a partir dali. Voltar para uma casa desativada no Valo Velho, que grita por uma reforma, não era onde eu imaginava estar hoje.
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Mas, sem dúvidas, foi ali que comecei a me resgatar. Cheguei à conclusão de que publicar na internet seria a minha maneira de afirmar esse recomeço com a minha verdade. Nasceu o vídeo.
Talvez uma das partes mais importantes dessa história não seja apenas o que aconteceu comigo, e sim a forma como escolhi atravessar tudo isso. Precisei deixar o ego de lado e reafirmar que pedir ajuda não diminuía quem eu era.
Também precisei olhar para mim com mais sinceridade. Percebi que não precisava sustentar uma imagem de que eu estava sempre bem: ao contrário, ser vulnerável e transparente poderia ser uma forma de força. Foi assim que comecei a compartilhar minha realidade de maneira muito mais verdadeira, inclusive com as pessoas que me conhecem.
“Com a viralização, apareceram histórias de gente recalculando rota e começando de novo. Quando mostrei a minha vulnerabilidade, outras pessoas sentiram que também podiam. Agora, meu compromisso é criar um espaço em que caiba a vida real”
Ao organizar o Bazar para Recomeçar, com a venda dos meus móveis, aprendi a olhar para o desapego de uma forma ainda mais profunda. Na verdade, esse é um exercício que eu já conhecia através do meu trabalho com o brechó. Dessa vez, eu precisei aplicar esse aprendizado à minha própria vida.
Além do vídeo que atraiu o convite da Tpm, tenho uma série chamada Diário de uma viciada em andar de moto. É um vício novo, confesso. Comprei uma moto em 2026 com o objetivo de me ajudar no percurso até a faculdade que era bastante fora de rota, e quando percebi estava fazendo planos de viagens mais longas enquanto contava histórias reais e compartilhava reflexões diversas em cima da minha ADX 150. Surgiu assim um projeto pessoal em paralelo ao meu trabalho com o brechó.
Após o vídeo viral, apareceram centenas de pessoas contando as próprias histórias: gente recalculando rotas, encerrando ciclos, começando de novo e vivendo momentos vulneráveis que talvez nunca tivessem compartilhado nas redes antes. De alguma forma, quando tive coragem de mostrar a minha vulnerabilidade, outras pessoas sentiram que também podiam mostrar a delas. Agora, esse é o meu compromisso: criar um espaço em que caiba a vida real.
“Estou recomeçando, e isso cansa. Mas nada é mais exaustivo do que sustentar uma vida que não é sua”
Neste vídeo eu comento sobre a necessidade de reformar a casa da minha mãe. Agora as pessoas me perguntam: e a reforma? Quando vai ficar pronta? Eu também quero ver essa transformação acontecendo, mas a realidade é que ainda estou pagando as consequências das decisões que me trouxeram até aqui. Acho importante falar sobre isso porque a internet gosta muito do “antes e depois”, mas nem toda transformação acontece na velocidade que a gente gostaria de assistir.
Eu não estou triste. Tristeza não é exatamente a palavra.
Estou recomeçando, e recomeçar cansa. Cansa desmontar coisas que você levou anos construindo, mas também cansa sustentar um personagem que não é você. Talvez, pela primeira vez, eu esteja escolhendo o cansaço de reconstruir uma vida que tenha a minha verdade.
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