Todos os anos, um encontro pouco conhecido acontece na costa brasileira. Entre o inverno e a primavera, milhares de baleias-jubarte deixam as áreas próximas às águas frias da Antártida e viajam cerca de 4 mil quilômetros até o Brasil.
A escolha tem uma razão. Nas águas mais quentes e rasas do litoral brasileiro, elas encontram condições favoráveis para acasalar e ter seus filhotes que, apesar de nascerem pesando uma tonelada, vêm ao mundo sem a camada de gordura necessária para suportar as águas frias da Antártida. Depois de acasalar no Brasil, as fêmeas voltam ao sul e passam boa parte da gestação nas áreas de alimentação. Quase um ano depois, retornam à costa brasileira para dar à luz.
“Isso comprova que as baleias são brasileiras. Elas nascem aqui. São baianas, são capixabas, são cariocas, são paulistas. Elas só saem daqui para se alimentar”, diz Thiago de Barros Ferrari, fundador do projeto Amigos da Jubarte. “O filhote precisa ganhar uma capa de gordura e energia suficiente para nadar 4 mil quilômetros de volta para a casa. Se o filhote nascesse na Antártida, ele morreria por causa da temperatura.”
Durante muito tempo, essa presença esteve associada principalmente ao Banco dos Abrolhos, entre o Espírito Santo e o sul da Bahia, onde a plataforma continental se alarga, criando uma extensa área de águas rasas. No litoral capixaba, porém, há pouco mais de uma década, pouca gente sabia do passeio das jubartes que acontecia ali. “Antes de 2014, ninguém tinha ouvido falar de baleia aqui”, conta Thiago. “Toda a minha história de vida se resume num símbolo que estava ali: uma baleia.”

Naquele momento, Thiago já havia criado, com colegas, o Instituto Canal. A iniciativa nasceu em Vitória, em 2013, da preocupação com a poluição dos canais e das praias da região. Ele buscava também alternativas a um modelo econômico capixaba historicamente ligado à indústria e à exploração de recursos naturais. A ideia era desenvolver um modelo em que conservação, turismo e geração de renda não fossem objetivos excludentes.
Foi então que chegaram ao grupo informações de que o Espírito Santo era uma importante área de reprodução e um grande berçário das jubartes. Em outubro de 2014, Thiago e outros integrantes organizaram uma expedição que saiu de Santa Cruz, em Aracruz, às seis da manhã. Em pouco mais de sete horas no mar, avistaram mais de 80 baleias.
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“Depois de ver esse espetáculo, esse tesouro natural, eu pensei: ‘Isso aqui ninguém do Espírito Santo conhece. Não é possível. As pessoas precisam conhecer”, conta. Ainda no barco, no caminho de volta, começou a nascer o Amigos da Jubarte. “Quando você vê aquela incrível criação da natureza, praticamente um dinossauro, de 40 toneladas, 16 metros, na sua frente, é algo que arrepia. A respiração dela faz tremer os órgãos internos do seu corpo. É fascinante.”
A descoberta também oferecia a possibilidade de colocar em prática um projeto de desenvolvimento sustentável na região. A partir dali, o grupo começou a estudar a presença das jubartes na costa capixaba e a trabalhar para que mais pessoas pudessem conhecê-las de perto. “A baleia simboliza isso no fundo”, diz Thiago. “A gente finalmente acha um símbolo que pode representar de fato um desenvolvimento econômico sustentável para o nosso estado.”
Apesar de parecer uma novidade no Brasil, o whale watching já movimentava bilhões de dólares no mundo. Thiago e o grupo começaram a levar esses números para reuniões com secretários de Turismo e Meio Ambiente do Espírito Santo. A recepção nem sempre era das melhores. E era necessário convencê-los de que as baleias estavam, de fato, ali.

“A gente falava: ‘A gente viu lá, cara. A gente viu baleia. A gente precisa desenvolver isso’. A gente trazia números, mostrava que o whale watching movimentava 2 bilhões de dólares por ano no mundo inteiro, que a gente tinha um potencial, era um hotspot. E as pessoas não acreditavam.”
Ao longo dos anos, o trabalho tem acompanhado uma recuperação extraordinária. Durante séculos, jubartes foram caçadas pela carne e, principalmente, pelo óleo. Quando a caça comercial foi proibida no Brasil, em 1986, o grupo que migra para a costa brasileira havia sido reduzido a menos de 800 indivíduos, segundo Thiago. “Hoje são quase 30 mil baleias.” Com o fim da caça e os esforços de conservação, elas voltaram a ocupar trechos da costa onde haviam praticamente desaparecido.
A maior concentração continua entre o Espírito Santo e a Bahia. As adultas praticamente não se alimentam durante a temporada brasileira: dependem das reservas acumuladas nas regiões polares, onde encontram grande quantidade de krill.
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Hoje, o Amigos da Jubarte atua em diferentes pontos dessa rota. Além do Espírito Santo, está em Niterói, no Rio de Janeiro, desde 2022, e mantém uma parceria em Caravelas, na Bahia. No litoral capixaba, cerca de 2 mil turistas participam por ano das atividades de observação.
“A baleia tem um comportamento que a gente chama de spyhop, que é quando ela bota a cabeça para o lado de fora da água para investigar o que está acontecendo. É muito engraçado. Você vê o olho dela assim, para fora. São animais que enxergam muito bem e se comunicam muito através da vocalização. A jubarte se comunica em frequências bem baixas e também é conhecida como baleia cantora”, conta Thiago.
Quem deseja ver as baleias de perto precisa saber que existem regras que ajudam a protegê-las. Os barcos têm de estar a uma distância mínima de 100 metros, ou de 200 metros quando há filhotes. Também não é permitido persegui-los, interromper seu caminho ou entrar na água para nadar com eles. Outra preocupação é o tempo que os turistas podem permanecer perto das baleias.
Antes, o limite de observação era de 30 minutos para baleias sem filhotes e 15 minutos para mães com filhotes. Com a mudança, passou para 1h, no primeiro caso, e 30 minutos, no segundo. “A gente acha que 30 minutos é muito tempo, porque aqui é um berçário, o momento mais sensível da vida dos filhotes, da mãe, em que ela tá treinando, amamentando esse filhote”, avalia Thiago. O Amigos da Jubarte preferiu seguir as orientações anteriores, mais rigorosas.
Outubro é quando as jubartes dão adeus ao Brasil. Ou melhor, um até logo. “Até dia 10, 20 de outubro tem muita baleia, muita mesmo”, diz. Depois, mães, filhotes e outros indivíduos começam o caminho inverso, rumo às áreas de alimentação próximas à Antártida. Meses mais tarde, o ciclo recomeça.

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