Onde você mora, por onde anda, como se sente na cidade: tudo isso é projeto de alguém. Foi com esse pensamento que o arquiteto e urbanista Ciro Pirondi ajudou a fundar, em 2002, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Escola da Cidade. Nascida como uma entidade sem fins lucrativos, a instituição contou com o apoio da Trip desde a sua origem para oxigenar o ensino de arquitetura no Brasil. Localizada no centro de São Paulo, lugar estratégico para estudar os problemas urbanos, a Escola da Cidade tem a missão de formar profissionais interessados em melhorar a relação das pessoas com o espaço ao redor.
A fundação da Escola da Cidade
Em um papo com Paulo Lima no Trip FM em 2023, Ciro Pirondi revelou que a iniciativa veio para responder a uma crise no ensino da arquitetura no Brasil. “Fizemos a escola com a utopia de transformar a sociedade por meio do ofício do arquiteto urbanista. Vínhamos da ditadura militar, que tinha criado caixinhas estanques, como se o saber da arquitetura coubesse em prateleiras muito retinhas. Mas entendemos que esse saber se movimenta o tempo todo. Afinal, ele é a junção da técnica com a arte. Por isso, a Escola da Cidade representa essa leveza, arejando o ensino da arquitetura.”
OUÇA NO TRIP FM: Pra que serve a arquitetura? Um papo com Ciro Pirondi

Panorama da Arquitetura Brasileira 2015-2025
Essa visão ganha materialidade na exposição Panorama da Arquitetura Brasileira 2015-2025. A mostra fica em cartaz de 1º de outubro a 1º de dezembro na Galeria da Cidade. Localizada no térreo do edifício da faculdade, no bairro Vila Buarque, a galeria é a primeira do país dedicada exclusivamente a exibições de arquitetura.
Com curadoria de profissionais de diferentes regiões do país, a mostra reúne mais de 100 obras construídas na última década que respondem aos desafios da emergência climática, às pautas de gênero e raça e valoriza os saberes dos povos originários.
O acervo abrange ícones nacionais, como a ampliação do Museu de Arte de São Paulo (MASP), projetada pelo escritório Metro Arquitetos, e obras internacionais, como a Capela do Vaticano em Veneza, criada por Carla Juaçaba. Além disso, a mostra destaca a força da arquitetura periférica da Casa no Pomar do Cafezal, feita pelo Coletivo Levante no Aglomerado da Serra, maior favela de Minas Gerais.

A exposição também exibe exemplares da aplicação de técnicas ancestrais como o Espaço Mandaru, na Aldeia Pedra D’Água em Pernambuco, projetado pelos arquitetos Pedro Paes e Daniel Guima de Souza com o povo indígena Xukuru do Ororubá. “A mostra é uma forma de ver nossa civilização”, comenta Pirondi. “Não é uma arquitetura de espetáculo, mas um trabalho que reflete diferentes formas de ocupar o território.”
Na conversa com a Trip, o urbanista, que já trabalhou ao lado de grandes nomes como Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer, reflete sobre o papel da profissão no século 21.
Trip. A Arquitetura ainda soa como assunto de elite para quem está fora do meio. Uma exposição como o Panorama da Arquitetura Brasileira pode furar essa bolha e mostrar que a arquitetura das cidades é pauta de todo mundo?
Ciro Pirondi. A Arquitetura deve ser um direito humano e o arquiteto um prestador de serviço à sociedade. Quando propomos uma exposição da produção arquitetônica em um país continental como o Brasil, acredito que ajuda a reverter esta falsa percepção de que é um trabalho para a elite, principalmente onde mais de 70% da população vive em cidades.
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Você acha que a seleção de obras da exposição permite ao público “ler” o Brasil pela arquitetura?
Acredito que sim, pois a arquitetura que está na mostra é uma das formas pelas quais podemos ver nossa civilização. Não é uma arquitetura de espetáculo ou apenas construção, é um trabalho que reflete diferentes formas de ocupar o território.
Você já disse que muros e grades não resolvem a violência urbana, só acirram a exclusão. Com a insegurança no centro do debate sobre a cidade, ainda dá para reverter esse jogo? A arquitetura contemporânea pode trazer soluções para esse problema?
Continuo pensando que toda forma de exclusão amplifica a violência. Um bom desenho urbano é capaz de diminuir a separação e criar cada vez mais uma cidade para todos.
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Existe uma arquitetura pensada para as mudanças climáticas que o Brasil já pratica bem, ou ainda estamos importando modelos que não fazem sentido aqui?
Sim, estamos criando modelos de sistemas construtivos com desenhos cada vez mais adequados à geografia do local onde estão inseridos.
Em 2009, você escreveu um artigo para a Trip que dizia: “As cidades contemporâneas, instaladas sob o signo do medo, são imensas massas construídas com quase nenhuma arquitetura. Gradeamos praças, nos isolamos em muros altíssimos em nossas casas e trancamos nosso olhar em janelas que não se abrem para o vento”. Cidades melhores passam por uma conexão maior entre arte e arquitetura?
Arquitetura, arte e técnica são uma trilogia que, quando bem usada, promovem espaços de convívio e encontro. Sempre foi assim na história das civilizações.
Qual é a missão principal das escolas de arquitetura para o século 21?
Educação e cultura são alavancas de transformação social. No século 21, a arquitetura será cada vez mais coletiva, social e interdisciplinar. Formar arquitetos com essa visão é a função fundamental das escolas de arquitetura. Arquitetos formados com essa base, por certo, entendem que espaço público e privado são complementares e não excludentes.
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