“Relaxa, é rapidinho.” Quem nunca ouviu essas palavras antes de um procedimento ginecológico muito desconfortável? Preventivo, exame de toque, ultrassom transvaginal: por toda a vida, fomos acostumadas a normalizar gestos invasivos em nome da saúde. É claro que devemos manter as rotinas de prevenção, mas será que precisamos aceitar caladas todo e qualquer incômodo, como se ele fizesse parte do pacote de autocuidado?
Para o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, organização que, desde 1981, pratica a ginecologia com um olhar feminista, a penetração que acontece em consultórios e hospitais, com espéculos, swabs (cotonetes longos), transdutores e luvas de látex pode ser necessária, mas não deveria ser banalizada. “A mensagem que nos é transmitida o tempo todo é que precisamos suportar esse desconforto, e que isso faz parte de ‘ser mulher’ ou de ter vagina e útero”, diz Emilie Mello, representante da organização. Ela lembra que, para muitas pessoas, a penetração é atravessada por dor, medo e constrangimento, e que um procedimento desse tipo pode reativar memórias traumáticas. “O profissional de saúde deve sempre confirmar o consentimento antes de realizar qualquer tipo de toque ou inserção vaginal.”

Emilie é obstetriz formada pela Universidade de São Paulo (USP), única instituição do país que oferece a graduação em Obstetrícia. E, antes que alguém pergunte: não, obstetriz não é a mesma coisa que obstetra. As obstetrizes são habilitadas a assistir partos de risco habitual, fazer consultas de pré-natal e acompanhamento do puerpério, oferecer aconselhamento reprodutivo e métodos contraceptivos e atuar na atenção primária à saúde sexual e reprodutiva. “O diferencial é que nossa formação combina as ciências biológicas e humanas, que nos permitem desenvolver uma visão crítica do cuidado”, explica.
O Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, do qual Emilie faz parte, mantém uma clínica no bairro de Pinheiros, em São Paulo, que reúne obstetrizes, médicas de família, ginecologistas e fisioterapeutas pélvicas. Nas consultas, a autonomia e o conforto são levados a sério e colocados em prática. “Sempre oferecemos a autoinserção do espéculo durante o papanicolau. Assim, a pessoa consegue posicionar o instrumento no seu tempo, como se estivesse inserindo um absorvente interno ou coletor vaginal, o que pode aumentar o conforto.”
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Outra forma de garantir mais autonomia em exames ginecológicos é a autocoleta para o teste de DNA-HPV, já oferecida por laboratórios privados. O DNA-HPV, feito por autocoleta ou por um profissional de saúde, tem sensibilidade maior que a do papanicolau no rastreamento do câncer do colo do útero e permite a identificação precoce da infecção.
Num futuro próximo, realizar o próprio preventivo pode se tornar realidade também no SUS: tramita no Senado o projeto de lei PL 892/2026, que pretende tornar a autocoleta vaginal o método preferencial de rastreamento. Caso seja aprovado, mulheres a partir dos 25 anos poderão realizar o procedimento em casa. O método não substitui a consulta médica, mas ela passará a servir essencialmente para interpretar os resultados do exame. “Isso é algo revolucionário no cuidado ginecológico e bastante atrativo para boa parte das pacientes. Porém, um resultado positivo para HPV exige avaliação complementar”, afirma a obstetriz.
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Infelizmente, ainda vivemos em um cenário em que a dor das mulheres é frequentemente minimizada pela medicina. Um estudo publicado em 2024 na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America), uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo, mostrou que médicos e enfermeiros de emergências tratam mulheres e homens de forma diferente quando eles chegam a um hospital com dor. Segundo a pesquisa, pacientes do gênero feminino são menos propensas a receber analgésicos pelas mesmas queixas relatadas pelo gênero oposto, e a dor das mulheres tem 10% menos chance de ser registrada.
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Por isso, é importante entender que, mesmo como pacientes, não precisamos ser necessariamente passivas. “É fundamental que a pessoa atendida participe ativamente das decisões relacionadas a seu próprio corpo e sua saúde. Nenhuma pessoa deve se sentir obrigada a aceitar um procedimento sem poder expressar dúvidas, receios e limites”, diz a obstetriz.
Na conversa com a Tpm, Emilie conta de que forma procedimentos ginecológicos devem ser conduzidos para que não sejam mais um pesadelo em nossa rotina.
Tpm. Explica pra gente o que faz uma obstetriz na prática e como essa especialidade se diferencia do trabalho de uma ginecologista ou obstetra?
Emilie Mello. As obstetrizes são profissionais capacitadas para prestar assistência ao parto de risco habitual, atender consultas de pré-natal, puerpério, aconselhamento reprodutivo, atenção primária em saúde sexual e reprodutiva, oferta de métodos contraceptivos, entre outras atribuições. O diferencial da nossa formação é que contamos com uma grade extensa voltada para as ciências biológicas e a prática assistencial, mas que também contempla múltiplas disciplinas voltadas à área das humanidades, que nos permitem desenvolver uma visão crítica e humanizada do cuidado. Essa perspectiva nos permite compreender a saúde para além dos aspectos biológicos, considerando também os contextos sociais, culturais e políticos que atravessam a experiência de cada pessoa, bem como os desafios da assistência ginecológica e obstétrica no Brasil.
Quase ninguém se sente totalmente confortável em exames penetrativos como o Papanicolau, o ultrassom transvaginal e os de toque vaginal e retal. Mas o número de pessoas com uma resistência significativa, a ponto de evitar esses exames, é maior do que se imagina?
Para algumas pessoas, esse desconforto (e a memória dele) é tão expressivo que age como uma barreira ao cuidado ginecológico, e de fato leva ao adiamento ou à não realização desses exames. Mas, no geral, a falta de tempo e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde costumam ser empecilhos maiores do que a realização do exame em si. Aprendemos desde cedo a não questionar condutas e orientações médicas, mesmo quando nos causam desconforto, dor ou constrangimento, e isso se aplica especialmente aos cuidados ginecológicos. Isso não significa que o desconforto seja irrelevante para quem se consulta, mas muitas vezes acaba sendo naturalizado por pacientes e profissionais de saúde. Então, mesmo diante de exames invasivos como um exame penetrativo, nós, mulheres, tendemos a priorizar a responsabilidade sobre nossa saúde e os realizamos sem grandes resistências, mesmo diante de cenários desconfortáveis. A mensagem que nos é transmitida o tempo todo é que precisamos suportar esse desconforto, e que isso faz parte de “ser mulher” ou de ter vagina e útero.
Quando uma pessoa demonstra recusa ou grande dificuldade em fazer um exame penetrativo, como uma profissional de saúde deve agir?
É fundamental que o profissional de saúde respeite os limites de cada pessoa e esteja aberto a oferecer outras possibilidades. Quando um exame penetrativo é a conduta mais indicada, cabe ao profissional explicar isso de forma clara e acolhedora, conversar sobre os riscos e benefícios e construir junto com a paciente a melhor forma de conduzir o cuidado, respeitando suas escolhas e seu tempo, incluindo sua recusa. Havendo consentimento em realizar o exame, podemos pensar em algumas estratégias para minimizar os desconfortos, como exercícios de respiração, uso de gel lubrificante e até a autoinserção do espéculo, uma prática que sempre oferecemos no Coletivo Feminista e costuma proporcionar uma experiência mais confortável para a pessoa que está sendo atendida. Nem todas gostam da ideia, mas possibilita que a pessoa posicione o instrumento no seu tempo e no seu ritmo, como se estivesse inserindo um absorvente interno ou coletor vaginal. Contudo, quando houver dor intensa, medo persistente ou alta resistência para realizar o exame, vale considerar a investigação de possíveis causas que podem estar associadas a esse desconforto por meio de um acompanhamento multiprofissional, com uma fisioterapeuta pélvica e/ou uma psicóloga, por exemplo.
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Pessoas que vivenciaram violência sexual podem ter memórias traumáticas reativadas durante exames ginecológicos? Como profissionais de saúde identificam isso e o que muda no atendimento quando isso acontece?
Infelizmente, não é incomum que pessoas que vivenciaram violência sexual revivenciem essas memórias durante exames ginecológicos, especialmente quando são exames penetrativos, que levam a pessoa a se sentir exposta. Essas situações podem se manifestar por meio de reações físicas ou emocionais intensas como choro, rigidez e tensão muscular, ansiedade, entre outras. No entanto, é fundamental lembrar que nenhuma dessas manifestações, isoladamente, comprova uma experiência de violência sexual, é importante compreender o contexto antes de se fazer suposições. Nessas situações, o ideal é prestar um acolhimento sensível e cuidadoso, e reforçar para a pessoa que ela está em um ambiente seguro e que nenhum procedimento será realizado sem o seu consentimento. Explicar cada etapa do exame, apresentar os instrumentos que serão utilizados e combinar previamente como ela poderá sinalizar que precisa de uma pausa são atitudes simples que podem fazer uma grande diferença. Muitos serviços de saúde reativam as memórias da violência com abordagens grosseiras ou insensíveis, ou por ameaças, diante de uma recusa à realização do exame vaginal, por exemplo. Cada etapa deve acontecer com a autorização da paciente e a possibilidade de interromper o procedimento a qualquer momento. Se ela demonstrar alto desconforto, resistência ou manifestar o desejo de não continuar, precisamos entender que estamos diante de um limite claro e oferecer alternativas menos invasivas, adaptar a técnica ou adiar o exame, quando clinicamente seguro.
A dor das mulheres é frequentemente minimizada pela medicina. Como os exames ginecológicos devem ser conduzidos para evitar constrangimento ou desconforto?
Nesses casos, a escuta ativa é fundamental. Proporcionar um espaço acolhedor, no qual a pessoa possa esclarecer suas dúvidas, expressar seus receios e se sentir verdadeiramente ouvida, é essencial para construir uma relação de confiança entre o profissional e a pessoa que está sendo atendida. Para além disso, é fundamental reconhecer que a dor é um dado clínico importante, que merece ser levado a sério e investigado, e não normalizado. Um atendimento humanizado pressupõe respeitar a experiência de cada paciente, identificar suas limitações e adaptar a condução das consultas e exames sempre que necessário, priorizando seu bem-estar físico e emocional tanto quanto a realização dos procedimentos previstos.
Profissionais de saúde podem oferecer mais autonomia para pacientes em atendimentos ginecológicos?
Com certeza! É fundamental que a autonomia esteja no centro do cuidado em saúde sexual e reprodutiva, e isso significa garantir que a pessoa atendida participe ativamente das decisões relacionadas ao seu próprio corpo e à sua saúde. Na prática, essa autonomia se constrói por meio de informações claras, decisões compartilhadas e consentimento contínuo. Pequenas mudanças na condução da consulta também podem auxiliar este processo, como oferecer à pessoa que se consulta a possibilidade de inserir o espéculo em si mesma ou de observar sua genitália com um espelho. Aprender sobre sua genitália e a diferenciar o corrimento fisiológico do corrimento alterado, cria uma aproximação interessante com os nossos processos corporais. Essas estratégias podem ampliar a participação e sensação de segurança.
Como a perspectiva feminista se diferencia, na prática, em um atendimento ginecológico?
Uma perspectiva feminista na saúde, em primeiro lugar significa que a pessoa que está sendo atendida é a protagonista do cuidado com o próprio corpo e que suas experiências, percepções e contextos socioculturais precisam ser considerados tanto quanto suas características físicas e clínicas. A partir dessa compreensão, torna-se possível individualizar a assistência, construir decisões compartilhadas e estabelecer uma relação mais horizontal entre profissional e pessoa atendida. Um exemplo do diferencial dessa abordagem acontece na realização do exame preventivo (papanicolau). A recomendação é que ele seja realizado por dois anos consecutivos, e, com dois resultados negativos, o exame deverá ser feito a cada três anos. Entretanto, no Brasil, é muito comum que profissionais digam que é preciso realizá-lo todos os anos. Estamos falando de submeter uma pessoa a um exame vaginal a uma frequência três vezes maior que o recomendado. Isso nos faz questionar de onde vem essa ideia de que “não custa nada” [fazer preventivo a cada ano], porque custa, tanto em termos de gasto público, quanto em submeter as pessoas a procedimentos desconfortáveis e desnecessários.
O que pacientes devem saber antes de entrar num consultório para que seus limites sejam respeitados durante um procedimento ginecológico?
É imprescindível que as pessoas se apoderem de seus direitos de consentimento, privacidade, autonomia e informação. Nenhuma pessoa deve se sentir obrigada a aceitar um procedimento sem compreender sua finalidade ou sem ter a oportunidade de expressar dúvidas, receios e limites. Ao mesmo tempo, é fundamental reforçar que o respeito a esses direitos não pode depender exclusivamente de a paciente conhecê-los ou conseguir reivindicá-los. Cabe também aos serviços e aos profissionais de saúde criar ambientes seguros, acessíveis e acolhedores, nos quais o consentimento e a autonomia sejam práticas cotidianas. Somos nós, profissionais de saúde, que precisamos falar sobre consentimento e encorajar as pessoas a construírem autonomia em relação a sua saúde e não esperar o contrário. Na prática, muitos profissionais não só não fazem isso, como reagem mal quando as pessoas trazem suas percepções, experiências ou desejos, com frases como “aqui o profissional sou eu”, “estudei anos e vem você dizer como acha que as coisas devem ser”, entre outras falas do tipo.
O teste de DNA-HPV vem substituindo progressivamente o papanicolau na rede pública, e tramita no Senado um projeto de lei (PL 892/2026) que prevê a autocoleta vaginal no SUS, permitindo que a pessoa colete sua própria amostra. Na sua opinião, a adoção da autocoleta pode ser uma virada na prevenção do câncer do colo do útero, uma vez que essa modalidade poderia alcançar quem evita o exame por falta de tempo, de acesso ou por desconforto?
Sem dúvida, a autocoleta do teste de DNA-HPV é algo revolucionário dentro do cuidado ginecológico. A possibilidade de evitar um exame penetrativo é bastante atrativa a boa parte das pacientes, e pode sim favorecer a adesão ao rastreamento do câncer de colo de útero, justamente porque oferece uma alternativa mais prática e menos desconfortável para um exame de tamanha importância. O DNA-HPV é um exame ainda mais preciso do que o exame citopatológico (papanicolau), pois avalia a presença do vírus causador do câncer antes da lesão celular no colo do útero. Isso permite que o exame seja realizado dentro de um intervalo de rastreamento maior do que do papanicolau e também proporcione resultados mais precisos, o que, a longo prazo, tem efeitos importantes na detecção precoce e tratamento dessa patologia. Porém, é importante compreender que a autocoleta não elimina todas as etapas do cuidado e um resultado positivo para HPV exige avaliação complementar.
