Nunca fui uma criança de grandes ambições. Não sonhava com a mansão da Barbie, nem com um closet maior que o meu quarto. Entre os meus maiores sonhos de infância, estavam quebrar o braço, usar aparelho nos dentes e ter cicatrizes. Relendo essa lista, reconheço que talvez meus pais deveriam ter investido menos na Barbie e mais na minha saúde mental. Embora a lista possa sugerir algum tipo de inclinação masoquista, nunca tive interesse especial em sentir dor. O que me atraía era o potencial narrativo da experiência.
Uma cicatriz me parecia algo muito especial. Além de me transformar numa espécie de heroína, me dava uma história para contar. E eu sempre achei que, uma das maiores belezas da vida, fosse justamente o poder de uma boa história. A capacidade de transformar uma experiência, mesmo que inicialmente ruim, em algo que me colocasse no meio de uma roda de outras crianças, contando uma história, sempre foi algo que fez meus olhos brilharem. A cada cicatriz, uma nova personagem surgia pra mim. Guardo com muito carinho a minha primeira. Eu tinha onze anos quando fui lançada por um cavalo contra uma cerca de arame farpado. Junto com essa enorme, profunda e potencialmente épica cicatriz, surgiu minha primeira personagem: uma espécie de amazona infantojuvenil desgovernada.
Uma cicatriz me parecia algo muito especial. Além de me transformar numa espécie de heroína, me dava uma história para contar.
Passado o susto (para a minha família; para mim era frisson), tive que me acostumar a voltar à vida pacata de uma criança de quase 12 anos. O problema é que, depois de uma estreia tão grandiosa, minha primeira cicatriz tinha estabelecido um padrão muito alto. Dali em diante, qualquer outra teria que se esforçar bastante para roubar seu posto de protagonista.
Não demorou muito para que uma segunda cicatriz marcasse a minha pele. Depois de ser lançada por um cavalo contra uma cerca de arame farpado, ela veio de um tombo de uma cadeira. Não havia heroísmo, aventura ou sequer um animal envolvido. Nada poderia ser mais decepcionante.
Durante muito tempo, achei que minhas cicatrizes disputariam entre si o posto de protagonista. Até que, aos 40 anos, ganhei a terceira. E, com ela, a única história que eu nunca quis contar: a de quando minhas pernas cederam sob o peso da notícia da morte do meu irmão, aos 25 anos. A queda deixou uma cicatriz no meu joelho.
Existe, porém, um descompasso entre a cicatriz e a história que ela carrega. A marca no meu joelho é pequena, quase banal. Não existe nada nela que permita qualquer pessoa imaginar o tamanho da dor que a acompanha. Como se o meu corpo tivesse registrado o acontecimento da maneira mais superficial possível, enquanto alguma coisa em mim nunca mais voltou a ser a mesma.
Perder alguém é se acostumar a ser um pouco triste pra sempre. Durante todo o primeiro ano da morte do Caio, meu maior medo era que os anos se passassem. De que, de repente, fizesse 10 anos da morte dele. No início eu não sabia explicar essa sensação, até que entendi: a dor me aproximava do Caio. E o tempo, agindo de forma totalmente inconveniente, insistia em passar e, assim, tentar me tirar ele.

A morte do meu irmão não deixou uma cicatriz proporcional ao que aconteceu. Pelo menos não uma que pudesse ser medida em centímetros, examinada por alguém ou apontada com o dedo. A do joelho, sim. Essa eu podia mostrar. Mas, se alguém me perguntasse o que tinha acontecido, eu teria que contar uma história que não começava no momento da queda. Ela começaria sempre com uma lembrança. Por exemplo, o fato de que Caio, meu irmão, tinha uma teoria sobre a própria morte. Era um grande artista, além de medir 1,93 de altura, tinha um talento descomunal. Dedicou a sua meteórica passagem por aqui a fazer absolutamente tudo o que se propunha com a maior paixão do mundo, de um hambúrguer a uma canção. Tudo que vinha dele tinha a mais absoluta beleza de algo que tinha sido criado por um gênio. Alcunha dada por ele mesmo, que sempre me dizia rindo, que eu ainda veria: quando ele morresse, seria considerado um gênio. Eu ria de volta e, obviamente, naquela época, jamais cogitava que a morte sequer passasse perto da gente.
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No dia do velório, cercada por grandes artistas e amigos, ouvi a palavra “gênio” tantas vezes que fui imediatamente transportada para cada momento em que Caio brincava sobre isso. Era exatamente a palavra que ele tinha previsto. Meu irmão, que tinha passado a vida me provocando com aquela brincadeira, estava certo. E era quase possível ouvir sua voz rindo e sussurrando no meu ouvido: “não te disse?”. Não havia no mundo quem gostasse mais de ganhar uma discussão do que Caio. Um dos grandes artistas que estavam ali presentes, Pedro Rocha, um amigo que Caio sempre admirou e amou muito, fez um poema que define tão bem o Caio, que mais parecia uma fotografia do que uma poesia. Ele diz em um trecho: “Discordava de quase tudo quando surgia um assunto, dizia não e abria um sorriso querendo explicar melhor”.
Perder alguém é se acostumar a ser um pouco triste pra sempre.
Só quem teve a sorte de ser contrariada pelo Caio ganhava de presente, logo em seguida, o mais lindo dos sorrisos. O sorriso do menino que queria ser Ministro das Castanhas de Caju. Achar esse trabalho dele da escola, em que ele respondia, com a maior tranquilidade do mundo, que era isso que ele queria ser quando crescesse, me arrancou uma gargalhada que eu acho que não dava desde o dia em que ele morreu.
É muito comum que ao longo do luto a gente crie rituais para, de alguma forma, se sentir ainda conectada com quem perdemos. Talvez seja uma espécie de bálsamo para as cicatrizes que ficam. Eu entendi que o meu era contrariar o Caio. Nada o traria mais rápido do que colocar bem alto a voz do Eddie Vedder na caixa de som. Depois disso, é só esperar pelo seu sorriso querendo explicar melhor.
