Desde pequeno, Gugu aprendeu que podia ser quem quisesse, sem esconder suas cores ou se preocupar com o estranhamento dos outros. Criado pela avó Dilma, o menino de 12 anos vive em Quixadá, no sertão do Ceará, onde sempre foi incentivado a ser livre. Algo que ainda está longe da realidade de muitas famílias brasileiras. Essa é a primeira impressão que temos de Feito Pipa, novo filme de Allan Deberton, diretor de Pacarrete, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 5 de novembro. Depois de dois anos seguidos em que o cinema brasileiro chegou ao Oscar, com a estatueta de Ainda Estou Aqui em 2025 e as quatro indicações de O Agente Secreto em 2026, a Academia Brasileira de Cinema escolheu o longa para disputar uma vaga entre os indicados a Melhor Filme Internacional da edição de 2027.

Em Feito Pipa, acompanhamos os conflitos de uma família pelo olhar de uma criança. Gugu (Yuri Gomes) cresceu com a avó, que nunca tentou mudar seu jeito de ser. Já o pai, Batista (Lázaro Ramos), tem outra ideia de como um menino deve se comportar. Por isso, a relação entre eles está longe de ser simples.
Logo no início, uma seca faz ressurgir as ruínas de uma antiga cidade submersa. Ao mesmo tempo, Dilma (Teca Pereira) começa a apresentar sinais de Alzheimer. Enquanto o passado da cidade reaparece, a avó também perde suas lembranças. Para Gugu, a doença também traz o risco de ter que morar com o pai e viver sob regras de masculinidade que nunca fizeram parte de sua criação. Afinal, desde a morte da mãe, foi com Dilma que encontrou liberdade para ser quem é.
O afeto e suas contradições
À Trip, Lázaro Ramos conta o que o atraiu no roteiro de André Araújo. Para o ator, o filme consegue abordar temas importantes sem recorrer a explicações óbvias. “Me toca o olhar sensível de contar essa história, que tem temas relevantes, já falados em outros filmes. A maneira de contá-la faz com que a gente tenha um filme que não é didático. Ele tem uma didática do afeto, onde a gente não só se conscientiza, mas também se sensibiliza com a trajetória desses personagens.”
Em uma das cenas, Batista tenta se aproximar do filho presenteando-o com uma revista masculina. Gugu, por sua vez, transforma as páginas em um caderno de colorir. A situação tem humor e mostra o desencontro entre os dois.
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Lázaro conta que, ao ler o roteiro, imaginava Batista como um homem machista, violento e agressivo. No entanto, conhecer Yuri Gomes durante os ensaios mudou sua percepção. “Assim que conheci o Yuri Gomes e vi que ator daria vida a ele, imediatamente entendi que o melhor para o filme era um pai que amasse o seu filho profundamente, mas que tivesse dificuldade de aceitá-lo do jeito que é, fazendo o personagem ter mais camadas.”
Assim, Batista ganhou outras nuances. Embora tente controlar o comportamento do filho, também deseja estar perto dele, mesmo sem saber como. “Porque o Batista não é um homem somente sisudo ou que coloca a responsabilidade por não saber administrar o próprio filho. Ele tem uma sofisticação que eu acho que se aproxima mais da vida real. Essas relações com o machismo não são definidas apenas por um adjetivo”, diz Lázaro.
A masculinidade também se aprende em casa
O assunto também faz parte da vida pessoal do ator. Pai de dois filhos com Taís Araújo, ele diz que procura rever constantemente as ideias sobre masculinidade que aprendeu ao longo da vida. “Acho que, muito pela minha criação, pela minha profissão de artista, essas questões da masculinidade são trabalhadas todos os dias. Não que eu não tenha influências do machismo ou da rigidez do que ainda se coloca na cabeça da gente, do que significa e representa ser homem e ter poder”, ele conta, lembrando que esse ainda é um desafio diário. “Eu retrabalho isso todos os dias, muito na convivência com meus filhos, sendo sensível às demandas deles, aprendendo, escutando muito e entendendo que isso é um peso que eu não preciso levar para minha vida.”

Além das relações familiares, Feito Pipa também chama atenção pela maneira como retrata o sertão cearense. Quixadá aparece para além das imagens de seca e pobreza tão frequentes no cinema e na TV. Há festas, brincadeiras, música e uma cidade que segue sua vida enquanto Gugu enfrenta as mudanças dentro de casa.
Já as ruínas que reaparecem com a seca foram inspiradas numa experiência do roteirista André Araújo, que conheceu os vestígios de uma cidade inundada no Rio Grande do Norte. Anos depois, essa lembrança foi incorporada à história, em paralelo à perda de memória de Dilma. E, à medida que vê a avó perder a memória, o menino se depara com a possibilidade de perder também seu principal apoio, a pessoa que sempre o compreendeu.
A disputa pelo Oscar 2027
Para Lázaro, a escolha de Feito Pipa para representar o Brasil na disputa pelo Oscar também é importante por apresentar outra paisagem e outras histórias do país. Depois de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, dois filmes que abordam, de diferentes maneiras, a ditadura militar, o ator celebra a oportunidade de mostrar a diversidade do cinema brasileiro.

“Feito Pipa é o filme ideal para esse momento do mundo. Porque, além das questões todas que ele trata, ele inova na linguagem. É estratégico para o Brasil, que, depois de dois filmes que falavam da ditadura em formatos diferentes, traz outro filme, que tem outra paisagem, outra área do país, outra geografia, outro perfil de atores e outro tipo de texto.”
Ainda assim, apesar da expectativa em torno do Oscar, Lázaro lembra que seu principal desejo é conquistar o público brasileiro. “Independentemente da indicação ou não, acho que é estratégico para a compreensão do que é o cinema feito no Brasil diante dos olhos do mundo. E o principal público mesmo é o brasileiro, que espero muito que abrace essa história tão tocante.
