A atenção de Carollina Lauriano está em criar narrativas entre a arte e a vida, mas também em se voltar para quem, até pouco tempo atrás, ficava de fora de galerias e museus: mulheres e corpos dissidentes.
Formada em jornalismo, trabalhou por anos com publicidade e relações públicas no mercado da moda, até começar a questionar o próprio lugar numa indústria guiada pelo consumo. Em 2016, encontrou nas artes visuais um campo onde poderia articular narrativa, sensibilidade e transformação social.
Carollina atua de forma independente desde 2017, esteve à frente da curadoria e da gestão do Ateliê397, um dos espaços independentes mais importantes de São Paulo, entre 2018 e 2020, foi curadora adjunta da 13ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, em 2022, e assinou no ano seguinte o Showcase da SP-Arte. Mais recentemente, fundou a Base Art Consulting.
LEIA TAMBÉM: A poética do silêncio de Grace Passô
Nas palavras dela, sua pesquisa quer discutir “formas poéticas de habitar o mundo”, a partir de uma perspectiva de gênero, étnico-racial e identitária, cruzada com uma agenda decolonial e ecológica. Esse recorte parte da própria experiência de Carollina como mulher negra num circuito elitizado.
Hoje, esse trabalho passa também por iniciativas de arte-educação e direitos humanos, como um projeto com o Conselho Nacional de Justiça voltado a internos e egressos do sistema penitenciário e um novo ciclo curatorial no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, com a organização ASP. É o mesmo olhar que orienta a lista a seguir, com cinco nomes de artistas plásticas brasileiras que Carollina admira e para as quais tem olhado com atenção.
Samara Paiva, de Maués (AM)
“A artista investiga, por meio de sua pintura, a relação do corpo com o ambiente íntimo que ocupa, especialmente na perspectiva da mulher negra, retratando cenas domésticas com uma sensibilidade ímpar. Dessa forma, Samara nos traz um olhar tanto sobre as nossas vulnerabilidades quanto sobre a força empregada nesse contexto interno e do cuidado.”

LEIA TAMBÉM: Mateus Aleluia é um milagre
Jacqueline Faus, de São Paulo (SP)
“Uma das escultoras mais proeminentes da sua geração. Sem se apegar a uma narrativa condutora de seus trabalhos, a pesquisa de Jacqueline se desdobra sobre o próprio fazer artístico como um ato de expressão. Suas cerâmicas se debruçam não sobre o domínio da forma, mas sobre como o gesto vai levando à próxima ação e investigação. Por isso, as formas criadas pela artista possuem um certo fascínio, ao passo que guardam um certo mistério, uma sensualidade e uma brutalidade.”

Flávia Ventura, de Belo Horizonte (MG)
“Em suas pinturas, a artista utiliza o seu corpo como um laboratório de investigação sobre o prazer, não necessariamente ligado ao erotismo, mas de uma forma mais ampla. Prazer, aqui, configura pulsão de vida, especialmente quando está ligado à celebração de corpos e identidades que não são o padrão social ou do desejo.”

LEIA TAMBÉM: Estética é política
Lyz Parayzo, do Rio de Janeiro (RJ)
“O corpo de trabalho de Lyz investiga a herança escultórica brasileira, ao mesmo tempo que coloca esse lugar em xeque, investigando como essa mesma história deixou de lado tantas outras narrativas. Dessa forma, suas esculturas se tornam verdadeiras armas, tanto de ataque quanto de defesa, lidando com as formas de proteção que os corpos trans desenvolveram para enfrentar estruturas opressoras.”

Gi Monteiro, de Fortaleza (CE)
“Em tempos de disputa por narrativas, a artista opta pela abstração. Ao inverter a lógica do que se espera de certos corpos ou grupos identitários, essa recusa ao figurativo opera na busca pela liberdade poética e política, construindo outros lugares de visibilidade e imaginário das pessoas trans e racializadas.”

LEIA TAMBÉM: 6 Festivais para botar o pé na estrada e conhecer o Brasil
