Era junho, às vésperas da Copa do Mundo de 2026. O jogo contra o Egito era o último amistoso do Brasil antes do Mundial, e o fotógrafo Sam Robles se jogou no gramado tentando captar de perto a comemoração de um gol de Endrick. A cena viralizou. Para Robles, foi mais um dia de trabalho de quem hoje soma a cobertura da seleção brasileira a um projeto pessoal e afetivo.
Em maio, a Assouline, uma das editoras de fotografia mais respeitadas do mundo, lançou “Football Roots: The Spirit of the Game”, livro que reúne imagens feitas por Robles em campos de terra e ruas de países como Brasil, Nepal, França, Portugal e Catar, exibidas antes numa mostra no Catar durante a Copa de 2022. “O livro fala muito sobre o primeiro amor, o futebol que a criança joga antes de saber que pode virar jogador, antes de saber que futebol dá dinheiro”, ele explica. “A criança está ali só porque quer se divertir, ou, como já aconteceu comigo na infância, porque aquilo é um escape para algum problema.” Eis o seu projeto pessoal.
Robles chegou sozinho à Flórida aos 18 anos tentando virar jogador profissional, sem documentos para atuar ou estudar, e foi parar num lava-rápido. Trabalhando lá, juntou dinheiro por seis meses até comprar uma câmera Sony Mavica que um amigo havia lhe mostrado. “No instante em que vi aquela câmera, fiquei hipnotizado. Para mim foi uma coisa de outro mundo, surreal, tipo aqueles vídeos de bebê experimentando açúcar pela primeira vez”, lembra. “Eu não sabia nada sobre fotografia, não conhecia nenhum fotógrafo, olhava as fotos nas revistas e nem imaginava que existia alguém por trás delas.”

“O livro fala muito sobre o primeiro amor, o futebol que a criança joga antes de saber que pode virar jogador, antes de saber que futebol dá dinheiro”
Levou uma década até ele virar fotógrafo profissional, guiado pelo mentor Jack Wild, que lhe mostrou “como era o mundo da fotografia”. Nesse meio-tempo, acumulava as duas vidas. “Teve dias de eu, pela manhã, fotografar uma capa de revista com NBA Hall of Famer, um jogador já aposentado da NBA, mas dos brabos lá, e à tarde voltar pro lava-rápido.”
Antes de ter câmera, Robles já colecionava, sem saber, as paredes com tinta gasta e pichação das ruas de São Paulo. “Às vezes uma pichação, um grafite, uma parede que tem um pedaço de uma cor e outro de outra, uma parede rachada, uma coisa quebrada”, diz. “Demorou muito para eu entender que isso fazia parte das minhas referências.” A outra influência eram as campanhas de futebol que via em revista e outdoor.
Já dentro do ofício, encontrou no americano Richard Avedon, que fotografou até os 80 e poucos anos e morreu enquanto ainda trabalhava, o nome que mais o marcou. “A paixão dele pela fotografia é algo com que me identifico.”
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O futebol segue como paixão e a principal arena de tudo o que ele fotografa. “Costumo brincar que a câmera é um passaporte”, diz, comparando o ofício à bola que abriu portas na infância em São Paulo. “Quando essas duas coisas [futebol e fotografia] se encontram, consigo capturar algo que poucas pessoas conseguem. Quando os dois estão juntos, nem parece trabalho.”

“Ficou cada vez mais difícil encontrar crianças jogando na rua”
O livro nasceu de uma constatação. Ao olhar o próprio portfólio, Robles viu que faltava bola ali, correu atrás da seleção brasileira num jogo nos Estados Unidos e achou pouco. A virada veio numa viagem ao Nepal, a trabalho para uma organização sem fins lucrativos, quando foi com um amigo levar roupas a um acampamento de desabrigados e ficou jogando com as crianças antes de pegar a câmera. “Senti como se estivesse me fotografando quando era moleque jogando bola na rua”, conta.
Do Nepal emendou nas Olimpíadas do Rio, em 2016, contratado para registrar a cultura brasileira, e passou uns 15, 20 dias procurando crianças com bola nos subúrbios cariocas em vez de ir aos estádios.
Só depois entendeu que o assunto nunca tinha sido só a bola. “No fundo, eu estava ali para fotografar a mim mesmo quando garoto”, afirma. “Cada dia fotografando essas crianças era eu revivendo a minha infância.”
O livro saiu do bolso dele, sem patrocínio nem apoio, e Robles diz que insistência nunca foi bem a palavra. “É uma coisa que eu não conseguia não fazer”, afirma. “Toda vez que chego num lugar diferente, já começo a pesquisar onde pode haver crianças jogando.”
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O que ficou raro, de 2016 para cá, foi encontrar as cenas que esperava fotografar. “Ficou cada vez mais difícil encontrar crianças jogando na rua”, observa. “No começo já não era fácil, mas parecia mais natural, eu dava umas voltas e encontrava.”
“Ficou cada vez mais difícil encontrar crianças jogando na rua”
Nas últimas viagens ele penou até em cidades brasileiras, e no México rodou seis horas até achar uma criança com bola no pé. A percepção de Robles encontra eco em um estudo publicado em 2024 na revista Movimento, da UFRGS, com jogadores profissionais nascidos a partir dos anos 2000, que concluiu que o aprendizado informal do futebol segue vivo entre eles, mas migrou da rua para as quadras. “Faz parte, acho que o futebol está aí, só que mudando de lugar. No fim das contas, a rua é a minha paixão.”
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