Grace Passô é uma unanimidade. Respeitada por seus pares, aclamada pela crítica, que acaba de lhe conceder os prêmios de Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte no Festival de Gramado por Nosso Segredo, a atriz, dramaturga e diretora mineira conversou com a TPM direto de Belo Horizonte, cidade onde nasceu e para onde voltou há dois anos para o início das gravações da obra.
O longa aborda uma contenção de segredos em um ambiente familiar que explode de forma poética e conturbada, e conta com os músicos Mateus Aleluia e Tássia Reis na tela. “Eles têm participações rápidas, mas muito significativas”, conta Grace. “Eles jogam, de alguma forma, essa dimensão de uma certa ideia de consciência espiritual”. São de Mateus Aleluia, por exemplo, duas frases emblemáticas da abertura do filme: “A natureza tem suas leis, o homem é que tem moral” e “A saudade é uma entidade”.
Primeiro trabalho de Grace na direção de um longa, Nosso Segredo nasceu da peça Amores Surdos, escrita por ela em 2006 para o grupo Espanca!. Os palcos são a origem da vida artística de Grace, que estreou aos 13 anos, interpretando. “Toda atriz de teatro é também produtora”, pondera ela. “Essa noção do que está por trás do set, da produção, do que estrutura mesmo a realização de uma obra”, conta Grace, foi o que a trouxe à direção das câmeras aos 46 anos.

Mas é quando fala da atuação que o olho de Grace brilha. “Até politicamente falando, a atuação pra mim sempre foi uma escola muito poderosa. É muito importante essa ideia de se colocar no lugar do outro. Eu acho que a atuação é sobretudo um exercício de outridade, de alteridade, porque, de alguma forma, a atuação é aquilo que você transforma no seu próprio corpo para invocar outras coisas. E aí eu acho que isso me faz ser uma diretora que tem dimensão da relação do outro.”
Foi em 2015 que Grace estreou no cinema como atriz, no filme Elon Não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Júnior. Um ano depois, ganhou sua primeira protagonista, em Praça Paris. No currículo, estão produções marcantes como No Coração do Mundo, Temporada e Vicinato, que também representam o protagonismo conquistado pelo cinema mineiro na última década, com filmes como Marte Um.
Retornar à terra natal acabou revelando também o pulso de uma nova fase criativa e pessoal. “BH, para mim, é um caso de amor e raiva: sinto tanto um amor profundo e identificação completa — é a minha cidade —, como também é cheia de coisas que me dão raiva”, avalia sobre o regresso. Ao mesmo tempo, celebra o vigor da produção audiovisual local: “O cinema mineiro tem dado uma contribuição mesmo em relação a como encontrar narrativas próprias do Brasil. Têm nascido em Minas histórias e uma linguagem que tenta aprofundar uma ideia de identidade brasileira”.
TPM: Você é uma unanimidade entre os seus pares e entre a crítica. Você é premiada como atriz, como dramaturga e como diretora logo na sua estreia com um longa-metragem. Você se sente foda? Como está a sua autoestima nesse momento?
Grace Passô: (risos) Ah, Kellen, eu tô com 46 anos, né? Comecei a estudar as artes a partir dos 13. Já passei por muitas etapas da vida em relação à criação. Acho que é um momento que eu me sinto com muita maturidade do trabalho até a ponto de me sentir à vontade de estrear uma primeira direção de longa.
TPM: Você já dirigia no teatro também. Como sentiu a diferença entre dirigir para o palco e para as câmeras? E o quanto o teatro influenciou seu olhar de diretora pro filme?
Grace Passô: Sim, é muito diferente, mas o teatro é uma escola muito generosa para todas as funções porque ele guarda uma certa radicalidade nas relações. No Brasil praticamente não existe só quem é atriz de teatro. Toda atriz de teatro é também produtora. Então a gente aprende desde muito cedo a entender o que é necessário fazer para que exista espaço para a sua atuação. Fazer teatro no Brasil é, no mínimo, você aprender quatro profissões de uma vez.
TPM: Bom, mas você é atriz, dramaturga, diretora. Você se define de alguma maneira, tem alguma ordem hierárquica entre essas facetas?
Grace Passô: Eu sou uma criadora, tô nessas funções todas, mas me vejo muito como atriz. Eu amo essa profissão. Na atuação eu aprendi coisas que levo pra direção. A atuação coloca o meu corpo em evidência, me obriga a não separar a racionalidade da prática. E eu acho que no mundo, onde se falam tantas coisas, existem tantas teorias, mas as pessoas não conseguem colocá-las em prática, a atuação foi o que me trouxe essa possibilidade de pensar com o meu o corpo. Então, tem uma coisa que é da materialidade mesmo, do seu limite físico, não tão cerebral, digamos assim, uma coisa que parte do corpo para você ter essa interação com os atores e com o seu olhar para a história.

TPM: Em Nosso Segredo, quando a gente assiste ao filme, o que você diria “isso aqui é a cara da Grace”?
Grace Passô: Tem uma história que primeiro se apresenta de um jeito muito realista e que, ao longo da narrativa, se contorce muito, vai para lugares que parecem realismo fantástico, com muitos estranhamentos. Esse tipo de narrativa é muito comum nas coisas que eu dirigi e, sobretudo, escrevi.
TPM: E como você recebe essas tentativas de elaboração do público sobre o filme? As pessoas te fazem perguntas esperando que você o explique?
Grace Passô: Essa pergunta é maravilhosa porque desde que comecei a escrever isso acontece comigo. A recepção é sempre cheia de perguntas, mas tento encorajar o público a, de alguma forma, aceitar o mistério. Das coisas que a arte propõe é tolerar o mistério, aceitar o fato de que a maior parte da nossa vida a gente não sabe sobre ela. A maior parte é mistério. Eu acho que sentir é também um dos motivos de criar na arte, que não seja tendo um controle total em relação ao discurso de uma obra. Acho que a criação artística existe também para isso, para encorajar as pessoas a não viverem num mundo de controle. Mas eu hoje eu já consigo me divertir com as pessoas. Eu já fico bastante calma em relação a pessoas que vêm e que me falam ‘eu não entendi tal coisa’, ‘me explica tal coisa’. O que eu tenho tentado sempre é não me colocar nesse lugar de ser uma pessoa que vai explicar a sua obra, porque uma criação realmente é algo autônomo, não tem nada a ver com explicá-la depois completamente. Claro, posso ajudar, abrir percepções, ampliar possibilidades e tudo, mas não é isso que vai fazer a experiência dela ser melhor.
TPM: Uma dessas elaborações que me chamou a atenção foi a de uma crítica que saiu no jornal O Tempo, de Minas Gerais, que chamou o filme de terror à mineira. Fiquei curiosa para saber se de alguma maneira você concorda com isso, ainda que não queira explicar a sua obra.
Grace Passô: Acho que tem uma certa poética da contenção de algo até a explosão. Tem uma densidade, um tipo de silêncio ali e também uma busca por tentar expressar as coisas sem conseguir. Sinto que esse tipo de silêncio que está ali entre a família tem muito a ver com questões culturais também. Acho que numa certa dimensão, claro, isso acontece com muitas famílias, com muitos agrupamentos de gentes e afetos. Mas acho que existe, sim, algum silêncio ali que é típico da minha cultura, de onde eu venho. A família como esse lugar de um acordo e que também é um acordo onde as coisas acontecem e não se fala muito sobre isso, sabe? Acho que isso é uma característica mineira também. Tem uma densidade ali que quem é mineiro consegue identificar com muita facilidade.
TPM: Falando sobre as colaborações para o filme: tem a trilha excelente do Amaro Freitas, que casa muito bem com esse silêncio que você traz. E a cena de abertura traz o Mateus Aleluia em um momento que é quase um preâmbulo psicanalítico sobre o que é o filme. Como você chegou nesses nomes?
Grace Passô: O Amaro, desde a primeira vez que vi um show dele, pensei em chamar pra fazer a trilha do filme. Sou muito fã da música dele e queria viver um olhar dele junto de uma obra. Os atores foi um processo de conversa, também produção de elenco. Existem dois atores que precisariam ser muito especiais num certo sentido: o personagem feito pelo Seu Mateus e pela Tássia Reis. Eles têm uma espécie de encantaria, são como mentores na jornada do herói, preparam os personagens para o que virá. Eles também jogam essa dimensão de uma certa ideia de consciência espiritual pra mim. E foi uma grande saga pensar quem poderiam ser essas pessoas. E ver, aliás, que são dois músicos, né? — isso aqui é uma loucura. O Seu Mateus veio através de uma ideia na produção de elenco da Aline Villanreal, porque eu buscava alguém que tivesse essa consciência espiritual, e nos shows ele tem na palavra uma transmissão muito profunda de sabedoria. E Tássia veio a calhar depois porque é uma pessoa assim também.
TPM: Tem uma frase que o Mateus Aleluia fala, que eu já tinha ouvido ele falar no início, eu procurei e não achei a fonte correta. Ele diz, até anotei: “a natureza tem suas leis, o homem é que tem moral”. De onde vem essa frase, originalmente?
Grace Passô: Essa frase é do Seu Mateus mesmo. Nessa cena inicial, filmei uma longa parte improvisada dele depois de conversar muito e ele entender mais esse personagem. E, claro, ele é esse cara que traz esse tipo de palavra. É também dele a frase que abre o filme, praticamente, que a saudade é uma entidade. Então, eu pedi para ele, a partir do texto, também improvisar do que ele entendia desse personagem, e aí ele veio com essas colocações.
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TPM: A gente teve uma safra recente de filmes bem avaliados e que vieram de Minas Gerais, como Marte Um e outras obras da produtora Filmes de Plástico, e você também faz parte dessa cena. Como você vê esse momento do cinema de Minas?
Grace Passô: Acho que o cinema mineiro tem dado uma contribuição mesmo em relação a como encontrar narrativas próprias do Brasil, ao que pode ser uma atuação, um ator, uma atriz, e também ao universo poético, aos signos que são da nossa brasilidade. Acho que a Filmes de Plástico e outros, não só eles em Minas, vêm criando filmes com signos de muita brasilidade, que não só reconstituem um padrão de uma ideia de cinema como algo estrangeiro, de fora. Acho que têm nascido em Minas histórias e uma linguagem também que tenta aprofundar uma ideia de identidade brasileira. E isso pode parecer meio óbvio, mas não é.
À medida que no mundo dos streamings existe uma padronização muito grande em relação à imagem, ao que é um corpo de atuação de atriz, a gente caminha para uma padronização muito grande da imagem, um tipo de textura e, portanto, de histórias também. E eu acho que as coisas que estão sendo feitas em Minas contribuem, de alguma forma, para tensionar isso. Acho que são filmes que têm contado outras histórias, de outros modos, e também têm escapado de um certo estereótipo de Minas Gerais.
Acho que vem uma safra de filmes vindos dali de Minas Gerais a partir de agora que eu sinto que as pessoas vão se surpreender em relação também à linguagem. O próprio Ricardo mesmo vai lançar um filme que eu até protagonizei agora em San Sebastián e também no Festival do Rio, um filme de terror. E esse terror cria um lugar de terror dentro da família mineira muito interessante. Eu acho que os filmes que estão sendo feitos ali têm contribuído muito para uma ideia de cinema nacional com referências de identidade nacional.

TPM: Você saiu com que idade de BH?
Grace Passô: Eu saí várias vezes e voltei várias vezes. Mas da última vez eu já estava há seis anos em São Paulo.
TPM: Então, para você, voltar para BH, não teve aquele peso que às vezes é clássico da história de quem sai da sua cidade?
Grace Passô: Foi porque, de alguma forma, o que me trouxe de volta foi o filme. Na verdade, eu nem passei pela decisão de morar lá: fui para ficar um ano, que era o tempo de filmar e editar, e acabei ficando. A cidade me buscou. Mas BH, para mim, é um caso de amor e raiva: sinto tanto um amor profundo e identificação completa com a cidade — é a minha cidade —, como também é cheia de coisas que me dão muita raiva. Enfim, ou seja, é o meu lugar ali também. A minha visão é muito profunda da cidade; é uma cidade que me faz sentir muito porque sou dali.
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