“Só a arte salva.” A frase aparece algumas vezes ao longo desta conversa, sempre no tom de quem não está propondo uma metáfora, e sim descrevendo um procedimento de cura. Quem a repete é Alex Flemming, paulistano de agosto de 1954, filho de um piloto de aviões e de uma aeromoça, autor de duas das obras de arte mais vistas de São Paulo, ainda que boa parte de quem passa por elas todos os dias não saiba quem as criou.
Nascido de mãe brasileiríssima, como ele descreve, “uma Almeida Prado de Jaú”, e de pai brasileiro de família alemã, Alex estudou arquitetura na FAU-USP até 76 e passou dois anos em Nova York, entre 81 e 83, com bolsa Fulbright no Pratt Institute. Mudou-se para Berlim em 91 e ficou na cidade por 34 anos. Sua obra mais vista não está num museu ou galeria, e sim na plataforma da estação Sumaré do metrô de São Paulo, inaugurada em 98: são 44 painéis de vidro com diferentes rostos brasileiros anônimos fotografados de frente, no enquadramento das fotos de documento, cobertos por versos de poetas brasileiros que vão de José de Anchieta a Haroldo de Campos, em letras desencontradas que atrapalham de propósito a leitura.
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Dezoito anos depois, em 2016, usando técnica semelhante, ele transpôs para a fachada da Biblioteca Mário de Andrade grandes imagens de funcionários e frequentadores da instituição, imortalizados na transparência dos imponentes panos de vidro.

O grito mais recente que trouxe Flemming ao Trip FM chama-se Apocalipse, um trabalho iniciado em 2015, que registra em telas, monumentos emblemáticos do mundo retratados explodidos e em ruínas. Em agosto, 37 dessas telas foram expostos em dois palacetes desativados havia mais de 80 anos na Rua Roberto Simonsen, no centrão, ao lado da Sé, com curadoria de Fábio Magalhães, sem patrocínio, sem assessoria de imprensa e sem energia elétrica, o que limitava a visitação às horas de luz natural. Num domingo, ele conta, entraram surpreendentes 1.300 pessoas.
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Agora o artista monta seu novo ateliê numa antiga agência bancária no Largo do Arouche enquanto prepara o lançamento de um livro sobre a viagem por terra que fez pelo país, do Rio Tacutu, em Roraima, ao Chuí, no pé do mapa, quase toda de ônibus, cruzando o Brasil já devidamente entrado na chamada faixa dos “70 +”.
A seguir, os melhores momentos da conversa. Você pode ouvir a entrevista completa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e em outras plataformas de áudio. A partir de outubro, as entrevistas do Trip FM voltam, com grande alegria, aos agora 107.9 Mhz da Eldorado FM.
Trip FM: Nos conhecemos 40 anos atrás e você passou quase todo esse tempo vivendo na Europa. Mas antes de falar da sua volta ao Brasil, me conta de que planeta você veio.
Alex Flemming: Nasci em São Paulo, em 1954, e tenho a peculiaridade e o privilégio de ser filho de um pai e de uma mãe muito, digamos, fora dos padrões da época. O meu pai era piloto de aviões e a minha mãe aeromoça. Isso fez com que a gente viajasse bastante. Logo depois de eu nascer fomos para os Estados Unidos, onde fiquei até o final dos anos 50. Depois meu pai foi trabalhar para a TAP, e nos mudamos para Lisboa. Voltei ao Brasil, ganhei a bolsa Fulbright, fui morar de novo nos Estados Unidos, em Nova York . Em seguida, me mudei pela primeira vez para a Alemanha, nos anos 80, voltei ao Brasil e algum tempo depois fui morar uma segunda vez, agora em Berlim , onde fiquei 34 anos. Estou feliz por ter voltado. Muitíssimo feliz.
Trip FM: E dá pra sentir um entusiasmo forte quando você fala do Brasil que está reencontrando . Me diz que país é esse.
Alex Flemming: O Brasil é um dos grandes países do mundo e, apesar de todos os nossos problemas, é possível resolver isso de maneira política, desde que a gente adote uma coisa que foi muito vilipendiada e muito mal usada nos últimos tempos , que é o patriotismo. O que eu condeno aqui é o espírito de vira-lata, como bem disse Nelson Rodrigues.
Aconteceu comigo há dois dias. Fui à reinauguração da cripta de Dom Pedro I, no Parque da Independência, e postei uma foto minha ao lado do túmulo, que eu acho o máximo do máximo. Algumas pessoas falaram: “Ah, Flemming, que patriotada”. Daí eu respondi: “Patriotada coisa nenhuma. Por que você vai a Paris ver o túmulo de Napoleão nos Invalides? Ou vai a Washington e acha lindo o monumento a Lincoln?”. Acho importante os brasileiros voltarem a gostar do Brasil.
Trip FM: Passar pela Estação Sumaré e ver os rostos que você envidraçou e imortalizou ali, produz uma sensação de ruptura com o corre tóxico da cidade. Como foi a gênese desse trabalho? E quem viabilizou, porque essas pessoas merecem aplauso também.
Alex Flemming: Quando o metrô inaugurou na nossa cidade, havia uma política muito clara de veiculação de obras de arte nas estações. Quem fez isso foi um dos diretores, a quem devemos esse empenho civilizatório de decidir que o transporte público não é só uma questão de transporte. É também uma questão de entrosamento da população com a cidade, e uma das melhores maneiras de fazer isso é por meio da arte. Só a arte salva.
Foram escolhidos vários artistas para propor projetos e, surpreendentemente, nenhum dos outros quis aquele lugar, porque ninguém queria um espaço que só tinha vidro. Como estudei na FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, pensei: “Não, eu quero fazer a obra dentro da questão arquitetônica. Se é vidro, vou estudar para pôr minha obra de arte no vidro”. Tive o apoio do pessoal da Santa Marina, e desenvolvemos uma maneira de fazer a fotografia no vidro. Não é uma película aplicada em cima do painel, é a fotografia fundida no vidro, ela é o vidro. É por isso que continua firme e viva todos esses anos, com sol, chuva e tudo, e não desaparece. É como uma garrafa de Guaraná Antarctica que tem o nome escrito lá. Aquilo é vidro, aquilo não sai.
E tem uma coisa importante, que é a perseverança do artista, porque fazer essa obra da Estação Sumaré me levou dez longos anos. Ganhei o concurso e daí o metrô foi até a Estação Clínicas e parou, uma estação antes da minha. Mudou a diretoria, que infelizmente não queria mais obra de arte, e eu bati o pé de que ia fazer. Tive o apoio de patrocinadores alemães que foram fundamentais, porque eu não tinha condição de financiar.
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Trip FM: Para quem nos ouve ou lê em outra cidade ou país e não conhece a obra, como seria a descrição do autor?
Alex Flemming: São 44 retratos, todos com fotografia daquele tipo de passaporte, a fotografia de documento, para ao mesmo tempo ser um retrato da população anônima e também, conceitualmente, para você se empenhar para decifrar o outro. Porque todos nós temos poesia dentro de nós. O outro tem poesia dentro de si, cabe a nós decifrar. E também cabe a nós saber que o outro é frágil, ele é de vidro.
A sociedade só funciona quando tem empatia, solidariedade e, vou usar uma palavra meio específica, comiseração. A grande chance da sociedade não é você conhecer o igual, o que é o seu espelho. Isso é fácil. O desafio é conhecer, aceitar e gostar do que não é você, do que às vezes é até o contrário de você.
Trip FM: Depois da Sumaré veio a Biblioteca Mário de Andrade, outra obra sua que virou parte de São Paulo. E agora?
Alex Flemming: Na biblioteca já existiam meios técnicos muito melhores do que os da antiga Santa Marina, então consegui fazer a três cores num vidro duplo. Vou lançar aqui uma ideia: eu gostaria muito de fazer mais séries desses projetos, mas, para isso, preciso ser convidado. Preciso ser convidado pelo Sesc, pela prefeitura de Jaguariúna, de Botucatu, das cidades por aí, porque estamos falando de obras públicas, obras para as quais eu preciso de edifícios públicos com grandes fachadas de vidro. Gostaria de fazer isso em Palmas, no Tocantins, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Onde quiserem. Quero retratar a população anônima do Brasil. Por favor, me convidem.
Trip FM: Dado o tamanho dessa sua paixão pelo Brasil, o que te levou a ficar mais da metade da sua vida fora do país?
Alex Flemming: Sempre gostei de viajar, obviamente pela questão da profissão dos meus pais, e isso ficou no meu DNA. Como nasci na década de 50, existia na época uma lei internacional da Iata, a Associação Internacional dos Transportes Aéreos, de que filho de piloto podia viajar de graça até os 30 anos. Isso já não existe mais, mas, a partir dos 16, 17, eu viajava sempre, sempre, sempre. Tive o privilégio de ter uma vida de trilionário sem ser. Fui com meus pais para a Tailândia nos anos 70, quando ninguém ia, e dei uma volta ao mundo em 1971.
Mas olha que interessante: meus dois irmãos tinham absolutamente os mesmos privilégios e praticamente não viajaram. Eu viajei porque quis, porque tinha um ímpeto, e viajo para o Japão com o mesmo ardor com que viajo para Quixeramobim. E daí tem a formação luterana, que é você gostar da cultura, se interessar por história, se interessar pelo outro. Não sei se eu procurava alguma coisa no exterior. Acho que o que eu procurava era me conhecer.
Trip FM: E o que fez você decidir que era hora de voltar?
Alex Flemming: Tenho 72 anos e sei que não vou viver mais 34. Então quero ficar no Brasil, quero dar a minha contribuição à arte brasileira. E quero também, de uma maneira até egoísta, vivenciar mais esse povo super legal que sorri, que é solidário, que, se você fala uma coisa na rua, te responde. Na Alemanha não é assim. Lá, com exceção das três semanas que são o verão, as pessoas não sorriem, são ríspidas, não te ajudam gratuitamente. No Brasil, você pede ajuda para alguém que nunca viu e o cara te ajuda.
E vou dizer mais uma coisa: eu me preparei para vir ao Brasil. A partir de 2022 fiz uma grande viagem, que documentei num livro. Fui por terra de Macapá ao Oiapoque, atravessei as três Guianas, entrei no Brasil pelo Rio Tacutu, em Roraima, e de lá vim até o Chuí de ônibus, com 70 anos de idade. Foram cinco etapas, porque eu morava na Alemanha, então vinha, fazia um trecho, voltava e fazia outro. O livro vai se chamar Do Rio Tacutu ao Chuí.
Nele relato o meu amor pelo Brasil, que é enorme, mas é um amor muito crítico. Por exemplo, na maior parte do país os museus estão fechados. Acho isso uma tragédia nacional, porque o Brasil só pode gostar de si desde que se conheça. Se os museus estão fechados, a gente não dá à população a possibilidade de conhecer a si própria. É por isso que o cara vai ver o túmulo de Napoleão em Paris, mas não quer ver o de Dom Pedro I em São Paulo.
Trip FM: Do que você vai sentir falta da Alemanha? Algum lugar, algum prato, bebida?
Alex Flemming: Não vou sentir falta nenhuma. Não vivo do passado, não sou nostálgico, não sou melancólico. Detesto essas pessoas que falam: “Ah, eu morei nessa casa há 500 anos, quero ver essa ruazinha”. Gosto de ver o presente e o futuro. E me livrei do mau humor de outono alemão, que é um saco. Que coisa boa que a comida alemã está em extinção, porque eu acho péssima, de difícil digestão. Comer Sülze, Sauerkraut… Deus me livre e guarde. Viva o nosso tutu com leitão à pururuca. São Paulo é uma cidade formidável, onde a vida borbulha, e aqui se vive a arte, às vezes mais e melhor do que em Berlim.
Trip FM: Você cursou a FAU, e a arquitetura e o urbanismo fazem parte da sua formação. São Paulo está passando por uma hecatombe de construções e ocupação desordenada. Bairros pensados para abrigar casas pequenas e comércios de rua, de repente, ganham arranha-céus com três andares de garagens subterrâneas.
Alex Flemming: Já observava isso quando morava na Alemanha, porque eu vinha ao Brasil no mínimo duas vezes por ano, e a cada seis meses a Avenida Rebouças era uma nova avenida. Ter novos prédios em si não acho ruim. Acho até bom que estejamos reinventando a magnífica arquitetura brasileira, porque nos anos 70, 80, 90 e 2000 nós só tínhamos prédios neocoloniais, neoclássicos, neo-sei-lá-o-quê, o Louvre de 23 andares, uma falta total de arquitetura para nós, que tivemos Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas, Reidy.
Mas o que eu acho muito ruim é a falta de um plano urbanístico levado a cabo. Aqui só importa o dinheiro e o imediatismo, então destrói-se tudo. É o que Caetano já cantou em “Sampa”, sobre a força da grana.
Não pode haver um adensamento tão grande em bairros que não o comportam, porque a rua não vai ter fluxo para esse trânsito. E temos que tomar cuidado com as câmaras municipais, porque o capitalismo selvagem pode corromper os nossos vereadores e fazer com que áreas sempre residenciais acabem assim, como está acontecendo nas bordas do Jardim Europa, do Jardim América, do Alto de Pinheiros. Tem prédio na trajetória do Aeroporto de Congonhas onde sempre existiram leis que impediam altura maior, e aí as incorporadoras constroem, vão à Justiça, ficam dois, três anos, depois pagam uma multa e o prédio é liberado. Isso significa que o crime compensa. Os vereadores precisam ter vergonha na cara.
Trip FM: Alguns dias atrás na Alemanha o partido AfD fez 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt e ficou a três cadeiras da maioria absoluta, o melhor resultado da extrema direita alemã desde a Segunda Guerra e a primeira vez que ela chega perto de comandar um governo estadual. Você viveu praticamente metade da vida lá. Qual é a sua leitura?
Alex Flemming: Vejo a ascensão do AfD, o Alternative für Deutschland, com muita preocupação e até com horror. O partido não é exatamente o partido nazista, mas é muito semelhante em algumas coisas. Claro que ele não vai querer uma guerra, isso não. Mas a xenofobia e o nacionalismo no mau sentido são assustadores. E eles conquistaram um estado que é parte fundamental da cultura alemã, faltando muito pouco para a maioria absoluta. Da mesma maneira que o partido nazista nos anos 30, o AfD hoje lidera as pesquisas nacionais. Ele só não governa porque todos os outros se aliam contra ele. Porém, isso vai acabar.
Também é preocupante porque um dos aspectos do programa do partido é retirar a Alemanha da União Europeia, e, se a Alemanha sair, acaba a Europa como ideia da ausência de fronteiras, do livre trânsito. É um retrocesso gigantesco que não só pode acontecer como é provável que aconteça.
Trip FM: Esse quadro me leva à sua série de pinturas, que é muito impactante, uma espécie de representação de um terrorismo abstrato, da destruição de grandes ícones e emblemas da humanidade. Que visão de mundo te levou a fazê-la?
Alex Flemming: A série Apocalipse começou em 2015 como uma questão metafórica, depois do ataque do Estado Islâmico ao Bataclan, quando terroristas entraram com metralhadoras e metralharam o público. O que é interessante: eles não metralharam quem estava no palco, metralharam quem tinha ido assistir. Eles metralharam a civilização, metralharam a ideia de pluralidade de cultura. Para mim, aquilo foi um apocalipse, foi um fim do mundo. Eu pensei: “Isso é o oposto do que eu quero como civilização. Preciso dar uma resposta com a minha arte”.
Então resolvi pegar um símbolo arquitetônico de Paris, a Catedral de Notre-Dame, e, metaforicamente, destruí-la numa tela. É a destruição do que pode vir a ser a destruição dela, mas ela ainda está lá. Nas pinturas da série o símbolo arquitetônico sempre continua lá, só que destruído, como alerta contra esses extremismos, dos metafóricos aos partidários, como é o AfD, até o do Estado Islâmico, que destrói Palmira ou vai ao Bataclan e mata as pessoas.
Para minha tristeza profunda, o mundo começou a destruir a arquitetura. Basta abrir o jornal de manhã e ver Beirute, ver Gaza, ver a Ucrânia, ver Teerã. Estamos indo para um mundo bélico, sem empatia e sem tolerância para com o outro. Tem uma tela muito clara nesse sentido, em que eu tenho a Sagrada Família, de Barcelona, começada por Gaudí, que levou 144 anos para ser construída e foi concluída agora. Demorou 144 anos, mas um drone com uma bomba a destrói em um segundo.
Trip FM: Você está descrevendo um mundo doente.
Alex Flemming: Nossa contemporaneidade está doente. Eu quero pílulas de cura, pílulas de arte. Só a arte salva. Vamos trazer a arte para todo mundo, vamos trazer o diálogo, a compreensão e a aceitação do outro.
Trip FM: Vou roubar a pergunta clássica que o Antônio Abujamra fazia no fim do Provocações, na TV Cultura, olhando bem em close para o entrevistado: Alex Flemming, o que é a vida?
Alex Flemming: A vida é uma dádiva de Deus. Nós somos feitos à semelhança de Deus, e por isso quero retratar a nudez humana. Nascemos nus e vamos morrer nus. Somos todos iguais. E por que somos todos iguais? Porque todos nós temos o sangue vermelho, todos nós mijamos amarelo e todos vamos morrer na cova. Viva a raça humana!
