Antes de virar livro, Confissões de Adolescente era só um diário. Maria Mariana escrevia nele desde os nove anos, por conselho do pai, o cineasta, ator, diretor e dramaturgo Domingos Oliveira. Ela tinha 19 anos quando ousou abrir ao público seus relatos mais íntimos sobre primeiro beijo, primeira transa, primeira tragada e aborto – tudo dito sem cerimônia.
Os diários estrearam como peça em 1992, despretensiosamente ocupando o porão do Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro. As sessões lotadas fizeram da montagem um dos maiores sucessos do teatro jovem brasileiro e o espetáculo ficou 10 anos em cartaz rodando o país. Além de Maria Mariana, Ingrid Guimarães, Carol Machado e Patrícia Perrone receberam os primeiros aplausos da peça. “Ali, a gente viu que existia algo de eterno na adolescência com que todos se identificam”, lembra a autora.
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O sucesso migrou para a TV com a série dirigida por Daniel Filho entre 1994 e 1996, indicada ao Emmy Internacional e responsável por revelar nomes como Deborah Secco, Daniele Valente e Georgiana Góes. Como livro, venderam-se mais de 250 mil exemplares, número raro para a literatura nacional da época.
Agora, 34 anos depois, o projeto ganha nova edição pela Maquinaria Editorial e, em outubro, um espetáculo musical no Teatro Tom Jobim, no Rio. No elenco estará Laura de Oliveira, filha de Maria Mariana, que aos 24 anos estreia na mesma obra que marcou o início da carreira artística da mãe.
“Meus filhos me perguntam: ‘Como era viver sem celular?’ Isso é inimaginável para as novas gerações, assim como é para nós, pais e mães, entender como se vive através de uma tela. A proposta do livro e do musical é fazer adultos e adolescentes se entenderem”
Mais do que nostalgia, o relançamento é pensado como ponte entre gerações. “Confissões sempre teve essa missão. Muitos pais iam com os filhos ao teatro e dali saíam falando de assuntos delicados”, diz Maria Mariana. “A nova adaptação junta no palco mãe e filha em uma viagem no tempo em que a jovem passa a conviver com a versão adolescente da mãe. É um olhar cruzado entre os anos 1990 e a atualidade, com essa realidade hiperconectada”, afirma ela, que assina o argumento do musical.
Hoje, os temas de conversa com os filhos vão além dos tabus das décadas passadas. A adolescente que escreveu aqueles diários tem, aos 53 anos, quatro filhos: além de Laura, Clara Maria, de 26 anos, Gabriel Pessanha, de 22, e Isabel Pessanha, 19. “Fiz questão de ser uma mãe que fala de tudo, sempre contei minhas experiências. Sinto que chega nas meninas a questão dos relacionamentos tóxicos. Elas podem falar o que quiserem comigo. Quando você tem essa abertura, é muito mais fácil orientar”, afirma a escritora.
A maternidade fez Maria Mariana atravessar um hiato na carreira de atriz, mas ela seguiu nos bastidores como roteirista de produções como Malhação (1998, 1999 e 2007), A Diarista (2004-2006), e da novela Mutantes: Promessas de Amor (2009). Depois de sobreviver a um tumor cerebral que a deixou em coma em 2015, formou-se em psicologia, virou instrutora de ioga e voltou a atuar na série Todas as Mulheres do Mundo (2020), escrita por seu pai, falecido no ano anterior ao lançamento.
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Agora, ela se prepara para um novo recomeço: “Vivi um período de reclusão, que foi necessário, mas estou com desejo de novos projetos. Quando o ninho estiver vazio, vou estar cheia de outras coisas”. Entre os planos está um livro baseado em seu monólogo Barco de Papel (2012), previsto para o próximo ano.
Na conversa com a Tpm, a escritora, psicóloga e atriz fala da fase de retomada e comenta a polêmica em torno de Confissões de Mãe (2009), livro em que defendia a maternidade como o caminho para a felicidade. “Tive um filho atrás do outro e fui para um ‘planeta mãe’. Foi a minha vivência, e respeito quem pensa de outra forma”, diz.
Tpm. Como surgiu a ideia de relançar o livro 34 anos depois?
Maria Mariana. Está sendo muito mágico, porque eu não procurei nada disso. Estava me formando em psicologia quando a editora e o produtor do musical entraram em contato comigo quase ao mesmo tempo. Foi uma coincidência, um não sabia do outro. Foi mesmo o Confissões voltando com uma nova reflexão. Eu me sinto muito feliz de ver que esse projeto se comunica através do tempo. Nesses 34 anos, algumas pessoas me procuraram para fazer uma nova versão da peça e da série, mas eu nunca me senti no lugar de falar com essa nova geração, porque tudo mudou muito. Eu andava a cavalo e os meus filhos andam de carro elétrico. Mas sempre quis falar desse diálogo entre gerações. A ideia nunca prosperou muito, e agora só prospera. A gente busca isso com o livro e o musical.

Como foi reler esses diários agora com quatro filhos e uma formação em psicologia?
No texto do Confissões, tem uma parte que eu vou ao orelhão, ligo de ficha para o meu pai. Era um outro mundo. E as minhas filhas me perguntam: “Mãe, como é que era viver sem celular?”. É inimaginável para essa geração ser adolescente sem todos esses recursos. E é inimaginável para nós, que somos pais, entender como se pode viver através de uma tela. Sinto que ao colocar essas gerações uma em contato com a outra, as duas crescem muito. A minha nova adaptação para o musical vai partir justamente desse conflito, de uma mãe com a filha, que volta no tempo e convive com a mãe adolescente. Vai colocar essas questões através dos dois tempos: os anos 90 e a atualidade, com essa realidade muito digital.
“Fãs de Confissões me tratam como uma amiga que cresceu com elas, porque não era nada inventado: era o meu diário e muito da vida das atrizes”
Você acha que tanto o livro quanto o musical podem unir adultos e adolescentes, abrindo conversas entre eles?
Com certeza. Confissões sempre teve essa missão. Muitos pais iam com os filhos ao teatro e dali saíam falando de assuntos como drogas, aborto, sexualidade e morte. Então, uniu muito as gerações na época e continua com essa missão. A Renata Sturm [diretora-executiva da Maquinaria Editorial] quis lançar uma seleção de clássicos, e nela o Confissões, ao ver a filha lendo um livro que tinha sido importante para ela na adolescência. Ela falou para mim: “Quero que as mães entrem na livraria com os filhos”. Para o musical, a gente vem trazendo justamente isso: o filho entender a adolescência dos pais, para compreendê-los melhor, e os pais também entenderem os filhos. A proposta é eles se encontrarem no mesmo lugar, olharem para o mesmo horizonte, apesar de estarem em mundos totalmente diferentes.
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O livro pode fazer com que mulheres que viveram a adolescência nessa época também retomarem o contato com a própria versão adolescente, e isso ser positivo para o autoconhecimento?
Com certeza. É o que eu estou vivendo com essa volta do projeto. Tá sendo muito rico para mim esse encontro com a Maria Mariana de 19 anos. Tenho aprendido muito com ela e sinto que isso acontece com os fãs de Confissões. Eles me recebem como se encontrassem uma amiga querida da adolescência, uma pessoa que cresceu junto com eles. Porque no Confissões não tem personagem, não é nada inventado, aquilo era o meu diário. A série também era muito a vida das atrizes. Então, entrou na casa das pessoas e conviveu com elas. Sinto que esse resgate da própria adolescente tá sendo muito importante para eu lembrar da força de viver, da coragem, dos sonhos, lembrar da essência. A adolescência tem a nossa essência, como tá no mistério da palavra: adolescência, a “dor-essência”. Quando a gente tem filho, temos que estar em contato com a nossa essência para poder ver a do outro. Sinto que agora o projeto tá num lugar de reflexão ainda mais ampla sobre o tempo, com esse público das mães e pais que viveram a adolescência naquela época.

“No mundo digital, há o risco de perder a própria essência e ficar agindo conforme os likes. É um perigo ainda maior para as novas gerações”
O mundo mudou muito desde a estreia de Confissões de Adolescente e o comportamento na adolescência acompanhou as transformações tecnológicas. Como mãe de quatro filhos, você observou essa fase várias vezes. Acha que a adolescência hoje é muito diferente do que foi nos anos 90, ou há aspectos que permanecem?
Acho que esse “eterno” da adolescência é uma coisa que o projeto sempre buscou. Eu me lembro que na primeira viagem que a peça fez em 1992, no interior de Minas Gerais, a gente se perguntava: ‘Será que eles vão se identificar? Porque estamos falando de uma realidade de classe média do Rio de Janeiro’. E todo mundo riu e se emocionou. Ali, a gente viu que existe algum lugar na adolescência onde todos estão juntos. Tenho visto isso depois de três décadas. No teste para o musical, uma atriz chegou falando que nunca tinha visto Confissões. Demos para ela o texto sobre a primeira transa, que está no livro. E ela falou: ‘Achei difícil, mas depois que eu comecei a falar, vi que aquilo era tão da minha história, decorei naturalmente’. Ela comentou que a primeira vez dela teve tudo isso, essa questão de ser ruim e bom ao mesmo tempo. Realmente, a adolescência tem algo de eterno que atravessa o tempo. A gente sai de um universo infantil para esse lugar de transição para o mundo adulto, e ali entramos em contato com o que a gente veio fazer nesse mundo e depois vai adequando conforme os papéis que têm que ser desempenhados. Às vezes, a gente perde essa espontaneidade, e olhar para a própria adolescência é resgatar essa essência. Eu sinto que, nesta realidade virtual em que todos estamos inseridos, há o risco de perder a própria essência e ficar agindo conforme os likes, a aprovação, o ideal que esperam que você seja. É um perigo ainda maior para quem nasceu nesse mundo conectado.
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Hoje é mais desafiante ser pai e mãe de adolescente do que era nos anos 90? Como é o diálogo com os seus filhos sobre esses temas mais delicados?
Todo dia agradeço por não ter filhos adolescentes neste tempo. Os meus filhos já estão um pouco mais crescidos. A minha mais velha está com 26 anos e a mais nova com 19. Na época da adolescência deles, não tinha tanto essa questão das redes sociais. Eles só tiveram celular depois dos 14 anos e não tinham muito acesso ao computador. Hoje em dia é muito desafiador, eu vejo pelos amigos que têm filhos adolescentes. Na faculdade de psicologia, a gente estuda a vulnerabilidade da infância e da adolescência no mundo virtual. Eu atendi alguns adolescentes no estágio. A gente vê que eles estão desenvolvendo patologias graves e dificuldades de aprendizagem. Tava todo mundo imerso nessa onda de internet e redes sociais e agora já tem alguns botando a cabeça para fora da água e vendo que tem gente se afogando, e os mais vulneráveis são crianças e adolescentes. Com o musical Confissões, a gente pretende trazer os jovens para o teatro. O simples ato de tirá-los de frente das telas já é um ganho imenso de saúde mental.
Seu pai aconselhou você a manter um diário. Você passou esse hábito para os seus filhos?
Passei adiante esse conselho tão sábio. Meus filhos todos tiveram diários e escrevem até hoje. O diário é terapêutico. Antes dos meus diários virarem o Confissões, eu escrevia para mim. Até que me deu um estalo: ‘Posso mostrar isso para os outros, fazer disso um espetáculo’, porque eu acompanhava meu pai no teatro e via que não existia uma peça que falasse das minhas questões. Então, organizei os textos do diário e a gente montou a peça. Mas escrever à mão, por si só, ajuda a organizar o pensamento e a processar emoções.
“Meu pai foi meu maior confidente. Quando menstruei pela primeira vez, havia um buquê de flores vermelhas na sala. Se um pai amigo é um escândalo hoje, imagine nos anos 90”
Seu pai foi muito presente na sua criação, muito diferente da realidade brasileira de pais ausentes. Como foi essa vivência, ainda mais sendo uma menina falando sobre a própria intimidade com ele?
Pois é, isso é um escândalo, né? Um pai amigo. Hoje existem alguns assim, mas nos anos 90 era ainda mais raro, chamava muito mais atenção essa minha relação com meu pai. Ele levou o diário da filha para o palco, era diferenciado, realmente. Lembro que, quando menstruei pela primeira vez, acordei com a cama suja e, ao voltar da escola, havia um buquê de flores vermelhas na sala. Eu morria de vergonha, mas ele tratava tudo com naturalidade. Essas coisas geralmente se fala mais com a mãe. Eu falava com ela também, mas minha mãe foi morar em Teresópolis, então meu maior confidente acabou sendo o meu pai. Com essa volta do Confissões, tenho pensado muito nele, que faria 90 anos em março do ano que vem. Depois que ele desencarnou, tenho conversado mais ainda com ele dentro do meu coração.

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“Sempre conto minhas experiências para minhas filhas e as ouço. Quando você tem essa abertura é muito mais fácil orientar”
Hoje em dia, a gente convive com muitas notícias sobre violência contra meninas e mulheres. Você sente um temor das suas filhas em relação a isso? Vocês conversam sobre isso?
Essa é uma das partes mais desafiadoras de criar filhos hoje. Sinto que chega nelas a questão do abuso psicológico de relacionamentos tóxicos. Elas já viveram coisas difíceis nesse sentido e estão ligadas para se proteger. À medida que elas foram crescendo, fiz questão de ser uma mãe que fala de tudo. Mostrei as minhas fragilidades e dificuldades da adolescência. Claro que a mãe tem um lugar de autoridade, não dá para ser totalmente amiga. Mas sempre conto minhas experiências e ouço muito elas. Quando estiverem atravessando uma dificuldade, a primeira pessoa que elas vão pensar em chamar sou eu. Esse é um lugar que sempre quis ter com elas e consegui. Elas podem falar o que quiserem comigo. Quando você tem essa abertura, é muito mais fácil orientar, do que chegar com uma doutrina.
Em 2009, quando lançou o livro Confissões de mãe, você disse à Tpm que a mulher que não casa e não tem filhos pode até ser feliz, mas não vai caminhar pra frente. Como avalia essa fala hoje?
Lancei esse livro porque tive um filho atrás do outro. Então, fui para um “planeta mãe”. Para você ter uma noção, quando Bin Laden morreu, meu marido chegou em casa com a notícia, e eu falei: “Quem é Bin Laden?”. Eu não sabia de nada, não ouvia nada. Quando fui ver a repercussão do livro na internet, tinha um monte de hater, uma polêmica, e me assustei. Fui reler e ali eu já queria mudar tudo. O que eu escrevi não era para defender a maternidade como o único caminho, mas o caminho pelo qual me encantei, me desenvolvi e que considero o melhor. Na faculdade de psicologia, convivi com muitas jovens que não queriam ter filhos, aí eu me tornei a chata, querendo convencê-las de serem mães. Às vezes, eu fico nesse lugar porque foi tão bom para mim, foi um mergulho em busca de autoconhecimento. Não foi para o outro, eu ganhei muito mais com esse mergulho na maternidade. Mas é uma visão minha e respeito quem pensa de outra forma.
“A minha vida teve uma superexposição desde criança. Vivi um grande período de reclusão, que foi necessário, mas agora desejo comunicar”
E agora, com os filhos já crescidos, você pensa em se dedicar a outras missões?
A luz da maternidade sempre me guiou. Nasci numa família de artistas e, em alguns momentos na infância, eu me sentia meio deslocada. Eu me sentia mais segura junto a mulheres grávidas que frequentavam aqueles espaços. Então, fui alimentando esse desejo de ser mãe. Eu colecionava a revista Pais e Filhos na adolescência. Sempre tive uma personalidade muito maternal, sou [do signo de] Peixes com Câncer. Mas tive que aprender a ser mãe de criança, depois mãe de adolescente, depois de jovem adulto. É como se fosse um joguinho que, quando muda a fase, tem que aprender tudo de novo. Apesar de os meus quatro filhos terem o mesmo pai e idades próximas, são muito diferentes entre si, e cada um me ensina uma coisa nova. Cada um veio trazendo algo que eu realmente estava precisando. Quando eles começaram a sair de casa, fui cuidar do meu ninho vazio. Aí fui fazer faculdade, agora voltou o Confissões e, daqui a pouco, viro avó. Dois dos meus filhos ainda moram comigo, mas quando o ninho estiver vazio, vou estar cheia de outras coisas.
Ainda pensa em trabalhar como atriz?
Com certeza. Vivi um grande período de reclusão, que foi necessário para mim, mas agora estou com desejo de comunicar e de desenvolver novos projetos. A minha vida teve essa coisa de superexposição desde criança e, como filha única, sempre tive pessoas olhando para mim. Em algum momento, eu precisei fugir para dentro através da maternidade. E eu me encontrei, construí coisas dentro de mim e agora estou no momento de compartilhar. Acho que tudo tem seu tempo certo de acontecer. Já recomecei algumas vezes, por isso, preciso da minha adolescente junto comigo para me dar coragem de me lançar, me dar força de vida. Eu me afastei da carreira de atriz, mas durante a faculdade de psicologia, eu ficava sonhando em voltar ao palco. Fiz uma apresentação teatral para o TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] e foi muito bom ver que eu tinha crescido como artista também. É como se a psicologia tivesse me fortalecido como artista e a arte me fortalecido como psicóloga. Tenho um projeto de um novo livro, baseado no meu monólogo Barco de papel, que pretendo lançar no ano que vem. Também quero retomar esse monólogo no teatro.
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