Toda semana, o perfil do Instagram da Tpm ganha uma tirinha nova: um traço afiado com humor ácido e uma personagem que se parece muito com quem a desenha. Desde 2020, a jornalista e quadrinista Carol Ito assina a coluna semanal de HQs que virou parte do ritual de quem nos acompanha nas redes. Só que o desenho é apenas uma parte do seu trabalho. Há dez anos, Carol usa o quadrinho como ferramenta de reportagem, indo a campo, apurando, entrevistando e desenhando histórias que a imprensa tradicional muitas vezes conta de forma caricata – ou nem conta.
Agora, esse percurso ganha forma de livro. Carol lançou uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a coletânea HQ-Repórter, que reúne nove reportagens em quadrinhos publicadas ao longo de uma década em diferentes veículos – entre elas, duas histórias que nasceram na Tpm. Uma é “A cidade ideal das mulheres“, em que Carol entrevista e desenha ativistas e especialistas em planejamento urbano para repensar a cidade sob um olhar feminino. A outra é “Quebrando aquários“, em que ela retrata a reflexão da filósofa Djamila Ribeiro sobre interseccionalidade, a partir de uma fala na Casa Tpm 2017.
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O livro também vai trazer os bastidores de cada reportagem: os processos de apuração, os encontros e as experiências que aconteceram antes de as histórias virarem imagem. “Fazer quadrinhos não te isenta do rigor, de levantar dados e entrevistar pessoas. A diferença é que depois de tudo isso, você tem que desenhar”, disse Carol. Foi com esse faro que ela assinou “Três mulheres da Craco”, reportagem publicada pela revista Piauí, que investigou os problemas enfrentados por mulheres na Cracolândia durante a pandemia. A matéria rendeu a Carol o Troféu Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em 2022, na categoria Arte.
No mesmo ano, ela entrou na lista Forbes Under 30 na categoria Literatura e Artes Plásticas. Em março de 2023, tornou-se a primeira mulher a desenhar charges ao vivo no Roda Viva, prestigiado programa de entrevistas da TV Cultura.

Nascida em Presidente Prudente (SP), criada em Marília, no interior do estado, e radicada na capital paulista desde 2016, Carol também é autora dos livros de HQ Inteiro Pesa Mais do que Metade: Depressão, ansiedade e positividade tóxica e Siriricas Tristes e Outras (In)felicidades, além de integrar a coletânea Boy Dodói: Histórias Reais e Ilustradas sobre Masculinidade Tóxica, obras publicadas em 2023.
Na conversa, Carol Ito conta como é ser mulher no campo do quadrinho de imprensa no Brasil, espaço que por muito tempo apagou a presença feminina, e revela sua tirinha favorita publicada na Tpm.
Tpm. Você é jornalista e trabalha com narrativas gráficas desde 2014. De onde veio essa vontade de contar histórias através do quadrinho?
Carol Ito. Eu sou da geração que lia mangá [histórias em quadrinhos de origem japonesa] de banca de jornal. Tenho ascendência japonesa, então eu e minhas primas líamos muita revistinha de mangá desde os 10 anos, ou até um pouco antes, talvez. Aí, comecei a pegar gosto de ficar copiando os desenhos. Me empenhei bastante em ser desenhista desde a infância. Eu também gostava muito das tirinhas de jornal. Só que na fase do vestibular, eu não via isso como uma carreira, então fui fazer jornalismo porque eu também gostava muito de escrever. Achei que o desenho ia deixar de ter uma importância na minha vida, mas na graduação eu conheci o trabalho do Joe Sacco [quadrinista e jornalista]. Li o livro de reportagem em quadrinhos Palestina (1993) [escrito por Joe Sacco, sobre suas experiências na Cisjordânia e na Faixa de Gaza] e tudo fez sentido: vi que eu podia juntar as duas coisas. Então, resolvi fazer o meu TCC em forma de reportagem em quadrinhos. E para treinar o desenho, criei o blog Salsicha em Conserva e fui postando nas redes sociais. Vi que tinha um público, pessoas que se identificavam, que interagiam com esse conteúdo. Daí não parei mais. Cheguei em São Paulo já com esse trampo misturando jornalismo e quadrinhos.
Sua relação com a Trip e a Tpm começou como repórter, e em 2020 você passou a atuar como quadrinista com a coluna Novo Anormal. Como foi começar esse trabalho de reflexão sobre o cotidiano em plena pandemia, quando todo mundo estava meio desesperado e desesperançado?
Eu entrei como repórter da Trip e Tpm em 2017, e logo no início da pandemia, em março de 2020, veio a ideia de publicar minhas tirinhas na Tpm. Eu já estava publicando as tirinhas no meu perfil sobre esse momento, tentando entender aquela loucura que estava acontecendo. Essas tirinhas vieram de uma necessidade de organização da ansiedade, do medo, da insegurança, do desconhecido que veio muito naquela época. O desenho, para mim, é uma ferramenta terapêutica para lidar com esse tipo de problema, de conflito. E também serve para expressar a minha opinião diante dos acontecimentos políticos. Então, começou muito como um grande desabafo mesmo, de tentar entender e de me sentir menos solitária, talvez, no isolamento social.
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Na coluna de quadrinhos para a Tpm, você aborda as situações com tanta propriedade que parecem desabafos pessoais. Os assuntos que você retrata costumam ser baseados em fatos reais que você viveu?
Sim, tudo que desenho e escrevo tem a ver com o que eu vivo, com as pessoas ao meu redor. Até brinco com as minhas amigas que qualquer encontro da gente pode virar uma tirinha. Então, desde uma conversa até um date ruim. Eu até me desenho como personagem, porque acho que é mais honesto com o público dizer quem está falando, de que perspectiva eu estou falando, que, no caso, é a minha mesmo.
Em seis anos de coluna na Tpm, qual foi a tirinha que você mais gostou de fazer?
Essa pergunta é bem difícil, porque foram tantas… Eu tento me divertir sempre que possível, fazendo essas tirinhas de domingo. Mas eu acho que uma delas resume bem o espírito dessa coluna na Tpm, que é a que eu dei o nome de “FIM”. Ela mostra um jeito de tentar dar risada e de fazer as pazes com as tretas que a gente passa na vida, com os boletos, com as relações. Gosto do tom dela e acho que representa muito do que eu faço.

Seus quadrinhos fazem muito sucesso na Tpm e geram centenas de comentários a cada post. O que você acha mais interessante nessa repercussão, que você não vê acontecendo em nenhum outro espaço?
Pra mim, é bem ambivalente: assustador, mas também interessante ver as pessoas comentarem sobre o meu trabalho. O quadrinho tem essa ação imediata no leitor: ele mobiliza sentimentos, admiração, raiva. Tem os haters, mas também os que admiram o seu trabalho. Já tive caso com um desses grupos Red Pill que fazem todo mundo te detonar, te ameaçar e denunciar seu perfil. Mas também já passei por encontros reais de pessoas que acompanham o meu trabalho e que se conectam muito com ele. Então, acho que gosto um pouco dessa adrenalina da rede social, desse desafio de estar ali dando a cara a tapa, mas confesso que nem sempre tenho saúde mental para ler os comentários.
Como foi ser a primeira mulher a fazer charges ao vivo no Roda Viva? Você ainda enfrenta barreiras de gênero na profissão?
Foi uma experiência muito marcante pra mim, porque eu cresci vendo o Roda Viva e acompanhando as charges do [Paulo] Caruso, que era um artista incrível. Quando fui convidada, perguntei para a produção: “Nesses trinta e poucos anos de Roda Viva, nunca teve uma mulher [desenhando]?”. E eles disseram que não. Mesmo que o Caruso precisasse se ausentar, eles substituíam por outro artista homem. O que diz muito também sobre a cena do quadrinho no Brasil, sobretudo o quadrinho de imprensa. As mulheres sempre existiram nesse espaço, mas são muitas vezes apagadas da história. Não foram muitas, mas existiram. Na minha pesquisa de mestrado, conheci artistas que eu nunca tinha ouvido falar, tipo a Mariza Dias Costa, a Cissa Pinto. São todas chargistas da imprensa, mas que, de alguma forma, foram esquecidas até pelas coletâneas, pelos documentários, pelos registros. Então, estar no Roda Viva foi uma vitória não só minha, mas de muitas artistas mulheres que tentam seguir nessa carreira.
Seu novo livro, HQ-Repórter, reúne trabalhos importantes da sua trajetória e registra parte da história recente do jornalismo em quadrinhos no Brasil. Como é o processo de transformar uma reportagem em HQ? O que muda em relação ao processo de apuração e edição de uma reportagem convencional?
Costumo dizer que tudo parte de uma boa história. Com o jornalismo em quadrinhos não seria diferente, porque fazer quadrinhos não te isenta do rigor, de levantar dados e entrevistar pessoas. A diferença é que depois de tudo isso, você tem que desenhar tudo aquilo, o que é uma parte do trabalho bem longa e intensa. O desenho traz algumas possibilidades de comunicação, como reconstruir momentos históricos, retratar lugares de difícil acesso e contextos em que as pessoas não querem ou não podem ser identificadas. O desenho às vezes abre algumas portas também, porque você não entra com uma câmera, que muitas vezes inibe as pessoas.
E você acha que esse formato consegue atrair quem hoje evita o noticiário tradicional?
Tem essa potência também, porque existe uma dimensão, digamos, poética do desenho, que comunica com as pessoas de um jeito diferente, talvez afetivo e imediato. No livro [HQ-Repórter], trago a reportagem [“Três mulheres da Craco”] sobre mulheres vivenciando a pandemia na Cracolândia, que me rendeu o prêmio Vladimir Herzog, e muitas vezes escuto: “Não sei se eu leria sobre esse assunto se não fosse em quadrinhos”. Então, o desenho acaba sendo um convite pra você conhecer outras narrativas, outras histórias de uma forma que seja atraente, que chame a atenção.
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Uma das reportagens do livro é “A cidade ideal das mulheres”, publicada em 2017 na Tpm. Faz quase 10 anos, mas os problemas de mobilidade e segurança na cidade continuam afetando especialmente as mulheres. Teve algo dos bastidores dessa reportagem que ficou marcado na sua memória?
Essa reportagem coincide com o momento em que eu estava vindo pra São Paulo. Cresci no interior do estado, na cidade de Marília, e vim para a capital em 2016 pra trabalhar e cursar o mestrado. Eu tava ainda chocada com o que é morar em São Paulo: uma pessoa vinda do interior, apenas uma camponesa, de repente tá nessa cidade maluca, monstruosa e com vários problemas. Na época, fui a um evento que era tipo um hackathon, essa coisa de: “vamos sugerir soluções para o planeta em algumas horas”. Mas era um evento de inovações voltadas para planejamento urbano e mulheres. Isso me inspirou bastante porque me vi em muitas situações relatadas, mas uma coisa que me marcou foi entender que pensar uma cidade boa para mulheres é pensar uma cidade melhor pra todo mundo. Porque mulheres têm necessidades como andar com carrinho de bebê, cuidar de idosos e estão pra cima e pra baixo carregando crianças. Você pensar nessas necessidades é pensar uma cidade mais acolhedora para quem tem problemas de mobilidade, para idosos, para pessoas com deficiência. Então, eu achei muito legal essa perspectiva de trazer o olhar das mulheres para a materialidade, para repensar um futuro mais diverso e mais saudável. Porque caminhar por São Paulo, num bairro popular, é desafiador para muita gente.
