O tamanho do corpo pode ser um assunto emocional e delicado. Parece que ninguém escapa das mensagens tóxicas sobre peso que permeiam todos os cantos da nossa cultura. O tamanho “errado” é tantas vezes equiparado a uma falha moral, entrelaçado a sentimentos de vergonha e inadequação.
Enquanto eu crescia, as batalhas do meu pai com a alimentação e o peso moldaram boa parte da vida da minha família. Durante décadas eu o vi enfrentar ciclos de compulsão alimentar, preso entre o julgamento alheio, o alívio passageiro que a comida proporcionava, e as promessas quebradas – a si mesmo e a quem ele amava. Foram incontáveis sustos de saúde e internações. A gordofobia casual sempre espreitava em nossa vida pública. Mas o que mais ficou foi a sensação de impotência ao ver alguém que você ama sofrer, ferindo a si mesmo de maneiras que não conseguia controlar totalmente.

Às vezes parecia que havia uma presença sombria à espreita. Não apenas fome física, mas uma fome emocional e espiritual. Um desejo implacável que nunca era saciado, como a noção budista dos Fantasmas Famintos (Hungry Ghosts).
Insaciável é a culminância das minhas próprias reflexões pessoais, exploradas pela lente do terror. É um olhar íntimo sobre a luta de uma mulher com a imagem corporal, a autoestima e a compulsão alimentar movida pela vergonha.
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Em certo nível, o filme pode ser lido como um conto de advertência sobre os perigos de mentalidades extremas (neste caso, as dietas) e sobre como buscamos, do lado de fora, uma sensação de bem-estar interior. A gente se anestesia com ciclos de dopamina: substâncias viciantes, fixações românticas ou sexuais, consumo sem fim em tantas formas possíveis. A comida pode ser o mecanismo de enfrentamento escolhido pela Hana [protagonista interpretada por Midori Francis], mas qualquer fixação pode virar uma tentativa nociva de alcançar amor, aceitação e paz.
Este filme não é sobre julgar corpos ou aparências. É sobre examinar as forças internas – vergonha, dor, evitação – que impulsionam o comportamento compulsivo, e as pressões sociais e pessoais que as intensificam. Não é sobre o quanto as pessoas comem ou pesam. É sobre como elas se sentem quando comem, e como se sentem em seus corpos. É sobre como a nossa cultura consegue transformar uma necessidade humana básica em fonte de vergonha, isolamento e impotência.

Insaciável é uma carta de amor: para quem cresceu desejando que seu corpo fosse diferente, para quem já se sentiu preso a impulsos autodestrutivos, para a minha família e a dor que carregamos, e para mim mesma. A vergonha muitas vezes pode levar à autodestruição, mas trazer compaixão, aceitação e luz para a própria escuridão é o único jeito de dissolver o poder que ela exerce.
Como Hana descobre da maneira mais brutal, cura e recuperação não são destinos aos quais chegamos, mas sim uma jornada contínua.
